uma breve história sobre os homens

Havia um rei que reinava soberano pelo simples fato
de acreditar(em) ele ter um atributo real, de sua própria realeza.

Havia um nobre que freqüentava a corte com nobreza,
porque ele era hábil com talheres e mantinha uma postura ereta.

Havia um bobo risível de sua estupidez que era a todos aprazível,
posto que gostavam da hipocrisia de justo o bobo dizer as verdades indizíveis.

Havia um bispo, cânone representante de deus por causa de sua batina e seu anel que gostava de vinhos e legitimava a realeza do rei por ter tido em particular com deus.

Havia um servo que nada sabia a não ser o seu desígnio
de servir e não saber nem do real, nem dos talheres, nem das verdades e nem de deus.

Havia uma mulher que tudo percebia e era apenas bela,
porque sem a mulher não se faz história nem se faz história.

Havia um súdito que acreditava sua sucursal
aos reais caprichos de sua realeza el rei.

Havia um louco que acreditava ser rei e reinar soberano pelo simples fato
de ter ele um atributo real, de sua própria realeza fantástica e indubitável.

Sentinela

"...seu rosto brilha em reza, brilha em faca e flor
Histórias vem me contar..."

trecho de Sentinela de Milton e Brant.




para os lá de casa


Meu deus dos ateus,
O que foi que eu fiz de mim
[sem interrogações]
a memória do meu corpo me diz,
minha lágrima, meu compartimento de lágrimas,
minha tristessência, onde me esqueci das orações,
ao que a fé pode me levar, porque de faca reluz sem antes.
A que distância exata me encontro de mim mesmo, de minha liberdade,
Não importa, eu aceito que sejam como a continuação de seus avós,
eu não pergunto aonde vai a estrada,
um saci me roubou as rédeas e a lanterna não vale o tamanho do escuro,
nem mesmo cem velas valem o tamanho do escuro.
Meu poço cabe muitos eus, e não sou falso.
Minhas fontes sou todas elas vertendo-me,
preciso aprender a floresta inteira, mas não preciso ser aceito,
sou bicho nascido para metades, sou feito mesmo por essas incompletudes,
sou parvo de civilizações e muitos talheres,
me descaso de temporalidades,
e os vícios,
Ora, o tudo são os vícios, mas não sou lógico nem advogo,
sou assim causado, mas não tenho causas,
às vezes conto causos, causos são mais justos que causas.
As causas mudam com o tempo, as coisas mudam.
Mas continuo contando causos.
Queria que todos soubessem o quanto me sinto senhor de mim mesmo,
O quanto sou senhor de mim.
Não soubessem, mas respeito de roceiro velho, respeito de benzedeira velha,
Respeito de preto e preta velhos, que eu sou, pois muito meu,
e água demais também mata a planta, zelo demais cansa a menina,
cansa o amor – fruta madura não se colhe pra depois,
fruto concluído não tem outro depois que não seja o apodrecimento,
é lei da vida.
Previsão do amanhã nunca vi um bicho outro que medisse,
nem há rio na curva das geraes que queira antes se salgar,
rio se segue sem adivinhações, segue por movimento, segue doce
porque água não tem dúvida.
É tanta coisa a ser escondida,
e d’outro lado uma vontade-correnteza desencobridora,
De todos os bois que me sou, carrego marcado a ferro quente a transparência labial,
a transparência de dois olhos pequenos e úmidos que não escondem
que não mentem.
O mundo é feito de muitos filhos errantes e caminhos errados,
pelo pasto mil trilhas sobrepostas ao aleatório,
mas o gado sempre vai ao cocho buscar o sal que lhe purifica a carne,
o gado sempre vai ao poço beber água,
e não há caminho errado – errado é não caminhar.
Paciência ao lavrador, paciência ao irmão mais velho,
pousa os olhos, recebe a mãe,
- acho que já nasci gritando à força,
agradece a mãe e lhe pede perdão por tê-la rasgado logo no teu primeiro ato de vida.
Perdão é palavra bonita, bonito o gesto, me dá vontade de lágrimas.
Mas já não há compartimento de...

Guardar silêncio pro sempre
resolveria esses homens e essas mulheres,
mas não posso, não podem, somos o nosso poder de palavra.
Não me repare o senhor, ando assim porque me pesam valores
o peso da sola dos valores e de meus cabelos desregrados,
se eu fosse capaz do silêncio de meus cabelos,
capaz apenas.
Os ventos se batem em redemoinhos e levantam a poeira
[porteira range,
pretendo ocupar espaços vazios.
Um dia na infância, quando eu ainda me entendia com meus silêncios
tive o ímpeto de abrir a cristaleira da sala,
pegar as taças, as xícaras, as galinhas coloridas
e
todas as
invenções fabricadas sem uso, sem pra quê,
e atirá-las ao chão, contra a parede,
apreciar o estilhaçar daqueles objetos. Foi o que me ocorreu,
se alguma coisa pode se quebrar,
ela não se cumpre inteira enquanto não se quebra,
até mesmo os anjos de vidro,
quis atirá-los simplesmente, vê-los depois de tantos anos parados sobre o móvel
se partirem - o deixar de ser das coisas.
Hoje penso nisso sem clareza, pois pássaros me desabitaram.
Hoje penso que aqueles seres de vidro e cristal
estarão ainda parados
se aperfeiçoando da própria inércia enquanto eu morro
todos os dias, enquanto me parto todos os dias
e
sinto o peso da inércia que eles amam
me coisificar.
Sentinela
Velo meu impulso, minha necessidade existencial
de
correr apenas, como quem voa só
pela intenção voa com olhos, ama a amizade dos pássaros,
ah!... era tão bonita aquela fazenda velha,
tão tristes as famílias de pedra, tão sério Pedro,
tudo quanto há um dia se cansa.
Como a casa velha tombou não por velhice propriamente,
nem tampouco pelo vento ou
as chuvas de pedra e flor que lhe pesaram, nem os ninhos que o telhado abrigava,
não foram os tijolos e também não foram os cupins.
A viga triste, uma viga triste e pisada por lagartos
que se cansou um dia,
cansou e não teve medo ou raiva ao se abandonar,
apenas se cansou e cedeu, deixou de sustentar. Daí em diante
a casa mesma que por séculos abrigou
a família e atentou aos sermões do pai de barbas grandes
quis ver a própria ruína, como quando eu era menino e me dava com os silêncios,
depois daquela viga triste que cansou,
A casa velha quis se concluir deixando de ser,
contemplou o próprio fim no espetáculo dos degredos.

Foi só o tempo exasperando a paciência das coisas.

Sentinela,
Arrisquei estradas enganosas, amores datados.
Lembro de meu lugar à mesa,
das febres que mamãe me curou, um verso de oração perdida,
lembro-me muito bem do amor em tudo se instalando,
que quero ir sempre, que quero chegar
sempre.
Sei que de algum modo,
rumamos mil lugares e não lugares
que não são mais que um meio, um momento
um enquanto eu não volto pra casa.
Da mesma forma que o gado dá mil voltas nos extensos pastos
sem cercado e volta ao cocho,
volta ao poço.
Por mais valente que eu seja,
sei que não sou mais que um boi vadio errante que demora mais magro
o seu retorno.
Fosso de costumes, quero reinventar as tradições
pra não ter que me submeter aos erros continuados,
mas quero ser amado,
Apesar de meus cabelos desregrados,
apesar de minha barba lenta,
quero ser amado não pelos caprichos, não pelos detalhes,
quero ser amado pelo que em mim é bruto, pela escolha que ninguém entende,
quero ser amado pela diferença em mim incorrigível,
quero amar e ser amado apenas,
por todas as loucuras que fiz e não nego, não me arrependo,
não me envergonho.
Quero ser amado
porque amo mesmo quando estou de barba e não escondo o choro
que corre inevitável do meu compartimento de lágrimas
rompidas.
Quero ser amado porque erro
e continuo querendo ser amado depois de errar,
continuo amando sem a pretensão de medir o que é incontável.
Quero ser amado por querer de tudo enfim
apenas o amor que dou e que recebo,
reinvento tradições
e
reinvento a comunhão.
Quero amar,
quero ser amado.
Sentinela.

Dedicatória pronta

A linguagem não nos separa
nem nos une.

Reconhecer que se escreve mais por necessidade
que por inspiração
é quase poético.

Fechamos portas e abrimos dicionários,
sem sombra não se escrevem livros
não se guardam amores.

Ter que dizer
é diferente de pintar quadros.