Sopro e sonho

Vida vida vida
sonho sopro sonho
apaga apaga e sonha

revira, volta, reviravolta e redemoinho
medonho

vida, sonho, sopro e ninho
busca
perda
ganho

sempre sempre sempre só
sozinho

Ante o além Tempo
intangível invisível ininteligível
sem forma, feito sopro, feito sonho soprado
feito a vida freada, contida, deformada qual pé de gueixa, deformada ou
sem forma, feito sopro, feito sonho Inalcançado... feito alcance, feito feito, cansado.

Descansa

da vida vida vida e dos
seus sonhos, sopros e borrachas,
dos ninhos frios abandonados na estação certa de emigrar
além do Tempo, além do lar lugar.

Descansa

das perdas, das pedras, dos
ganhos
beijos
juras
poesias

e pelo lápis sem ponta que é o passado
passado assado exaurido extinguido abandonado Inalcançável
construído na memória, em memória, in memorem!

Tão quebrado quanto o lápis do futuro...

me empresta o apontador?... que o presente
eu queria desenhar no teu caderno,
embaixo da minha poesia mais enluarada
de sonhos
sopro
vida vida
perda e
ganho

busca, busco e sonho
mesmo enquanto descansando
vida
vida vida
sopro vida sonho
nada apaga nada e nada
tudo é perda e/ou
ganho

Mas antes...
vida vida vida,
sonho

Astrologia por Carl Sagan

No caminho de casa

De relance eu vi o beco vazio
Onde pombos matam a sede nas poças de água suja.
Ouvi
as vozes que se confundem nos bares
Onde homens afogam a sede
Entre tragos de cerveja, cigarro e cachaça.
E os mendigos entorpecidos, desmaiados,
Nas esquinas imundas da cidade. Dormem,
como se o concreto os velasse.

Caminho sem pressa, nem calma. Adiante apenas.
Passo firme inabalável entre automóveis, edifícios e
sons.
Entre pessoas e
Coisas.

A calçada da avenida é como
Um mosaico pisoteado por gigantes.
Deformado pelo tempo; esse gigante sem tamanho.

A vida que é a calçada, deformada,
mosaico borrado,
Desfocado.
Pisoteado pelo tempo, esse déspota indomável.
E nossa carne fatigada, esquecida dos sonhos que
A enxurrada carregou pra dentro dos bueiros escuros.

A calçada sempre termina,
E apesar do seu fim, apesar dos temporais e dos gigantes que lhe pesam,
Ela fica sempre lá... mais suja ou irregular, não importa!
Ela é sempre um trecho do caminho de casa.

A calçada que é a vida.
Emoldurada de barulhos e silêncios, pássaros e morcegos,
Cimento e/ou árvore. É só um trecho, só uma parte,
exposta a ação de todas as coisas.

sobre o nada

Hoje eu quis
escrever sobre o nada




n
a
d
a



sobre o

nada


nada.



Mas o mundo inteiro parece
querer entrar
no meu ouvido.

O mundo inteiro parece
querer se fazer
sentido,
sem fazer sentido algum.

Como é difícil
tentar o nada.
Desperto ou
dormindo.

Talvez pelo fato
de o nada parecer habitar uma parcela
de tudo que é tudo

mas que nunca deixa de ter em si um bocado de nada.
Eu sou um forno de idéias, espiritualizado,
recheado de memórias e descobertas sentimentais.

Olhos de ressaca

Olhos

são mistérios das almas

que nem sempre se traduzem em

ou condizem com

as palavras.

Olhos

eu olhei,

em olhos eu olhei

em olhos

eu

me olhei. Me perdi

e

me achei.


Olhos sempre dizem

sem precisarem antes,

atravessar

a ponte das palavras.

Tenho saudades

de pares de olhos

que me olharam inteiro

fundo

e querem mais me olhar,

como se eu tivesse mais em mim

para verem

e

pra lhes saciar.


Olhos eu olhei

sempre nos olhos

tentando entrar e ler

sem receios sem ressalvas

é meu jeito de viver.

Com olhos eu olhei

ao passo que outros pares de olhos

também olhavam sem saber

a mesma lua acima

da curva do mar que em ondas

busca ser céu

e o céu num tom mais claro escurecendo e aos poucos

vertendo-se em mar.


Olhos raros, únicos eu beijei,

dentro, neles, me olhei,

mas olhos de ressaca eu nunca tinha visto,

só agora entendo

o olhar da Capitú

que o Machado de Assis tão bem traçou.

Até logo menos

Não
não fale,
shh...
Não me digas
não me digas nada
tudo isso, todo o todo quanto
queres dizer.

Nominar

é coisificar os sentimentos
encerrá-los em grafia, em conceitos,
e eles não são estátuas
como as palavras que escrevo, como as palavras
que tu escreves.
Melhor
mesmo,
é deixá-los tomar a forma
que eles bem quiserem

livres

tal e qual o barro que nunca
se termina de modelar-se,

o poema que não tem fim.

O que eu sinto
não tem nome nenhum
pra eu poder a cada instante
chamar do que for mais sincero
do que eu quiser

e eu sou sincero.