Carta para Sartre

O próprio homem aprisiona o homem.
Não é a inescapável liberdade a que estamos fadados
uma corrente pesada que carregamos na consciência, consciência que não é tão simplificadamente
apenas consciência, é antes uma consciência sentimental.
Não. A liberdade supera a incapacidade humana de ser livre.
Ela escapa à tentativa de direcioná-la prum caminho prévia e conscientemente
engendrado, ainda que se trate dessa tal consciência sentimental a que me refiro.
E o homem, se angustia duplamente, por não conseguir
comportar Em-si a infinitude das possibilidades,
nem organizar suas intenções flutuantes.
Seria então, a suprema e inefável liberdade humana que é capaz
de todas as direções e vontades existentes - criadas - entre o espaço de si Para-si mesmo
um grilhão ou a chave mestra de todo vir a ser?

Resta ao homem não se paralizar pelos medos
nem repudiar a angústia, que é uma certa forma de estar no homem,
não necessariamente negativo, é impulso motivador.
Você diz na Origem do Nada: "...fujo para ignorar, mas não posso
ignorar que fujo."
Que o movimento desencadeado pela angústia do nada
não se reduza a um perambular afoito e arredio, fugitivo.
Porque você mesmo diz que a liberdade não se fundamenta
em valores, desse jeito ela se limitaria e se prenderia, e perderia
o próprio fenômeno nome-estado indissociável: Liberdade.

passarinho

passarinho azul turquesa
da cabeça amarela como a camisa da seleção
e o papo pretinho pretinho
emitindo um canto bonito feito terça-feira nublada
feito a revoada solitária do passarinho azul turquesa
da mesma cor e do mesmo tom que o céu que não está

na qualquer-feira nublada, na re-pousada
solitária do passarinho da cabeça amarelada,
Amarela amarelada feito o sol que a terça-qualquer e nublada
esconde acima do tudo, que ao mesmo tempo
que é tudo é tudo e é nada.

passarinho azul turquesa voou
e a terça-feira nublada foi o que ficou.

sem fantasia

Não vivas tão só de fantasias,
sonhar é bom, tão bom
que às vezes nos damos por satisfeitos em só sonhar...
E estes sonhos se tornam tão profundos em nossos corações
tão enraizados
Que já não temos mais coragem de trazê-los à tona de nossas vidas,
revivá-los em intenção.

Guardamos para eles apenas alguns minutos de contemplação diária...
Mantendo-os num estado de coma.

recado

Poesia pra quê?... Se a vida pulsa
mesmo sem saber,
sem querer.

Andei andei andei,
de mãos dadas
por vezes

mas o caminho de volta é sempre sempre
solitário

mania de ir-se embora de mim!

Deixa um verso solto
num lugar pelo qual você passou
pra que eu possa colher


um sinal teu é...

sempre bem-vindo.

bicho homem

" Diz Petrónio que fora o medo que inventara as divindades. Deus é o que é. O homem é o pequeníssimo bicho da Terra, de que fala o Camões. Entre Deus e o homem, só a soberba estúpida do homem podia inventar convenções, concordatas, obrigações e alianças. O sagui é muito menos estúpido e mais modesto. Come, bebe, dá cabriolas, faz caretas ao mau tempo, coça-se ao sol, retouça-se à sombra, vive, e acaba feliz, porque se não receia de vir a ser homem. A estolidez do homem! Diz ele empapado de vaidade tola: 'Deus tem os olhos em mim!' Que importância! Deus tem os olhos nele! Se assim fosse, havia de ver bonitas coisas o criador do homem que mata seu irmão!
Os olhos nele, para quê? Para envergonhar-se a cada hora da sua obra!... É a blasfêmia em todo o seu asco! Rebalsa-te em sangue, miserável vampiro! Emperla os teus cabelos, meretriz, que deixas morrer tua mãe de fome! Mãe infame, come aí em toalhas de Flandres o preço da desonra de tua filha! Ostentai-vos, vermes, aos olhos de Deus, que estão pasmados em vós!..."





trecho do livro Coração, Cabeça e Estômago de Camilo Castelo Branco

Essa é a realidade humana e tudo quanto somos capazes. Nem só de belezas faz-se a vida e o poeta também é vil na sua estreita e torta vida que fica almejando um mundo infinito pela fresta de sentimentos confusos e indecisos, como se só a intesidade fosse plenamente verdadeira e consciente nisso tudo.

um dia eu chego lá

"Um dia eu chego lá..."

Mas lá onde?

Talvez num outro ponto da vida
em que eu repita essa mesma frase
essa mesma sentença de querer
e nunca chegar.

Um dia eu chego lá

lá na frente num novo lugar
que não passa de ponto de partida
pra um novo lá a se alcançar
e se cansar...

ou
será que a gente nunca cansa de nunca amanhecer
num dia em que simplesmente digamos despreocupadamente:
chegamos!

?

Esquecimento

O céu se choveu acho que foi por nós.
Pra lavar-nos a alma
De uma forma tal
Que não conseguem
Nossas breves lágrimas de sal

Pra lavar assim a alma
Do jeito que se precisa
De todo mal que há,
O coração avisa
É no recôndito escuro e abissal
Que espera a doce brisa.

Fecha os olhos menina
Esquece que não há fundo
Nem teto,
Esquece das curvas
E tudo que é reto,
Esquece o mundo e tudo que nele habita

Esquece esquece esquece esquece

esquece

e lembra lá no fundo
como quem lembra esquecimentos de outra vida
a minha voz dizendo:

Amor.