interlúdio

Arranco e rasgo o que sem mais escrevo
O engasgo manco faz nem qual - não vejo,
Colhido espanto sorte azar de um trevo
Afronto ouvido(bazar)sem norte em branco.

Talhado o vento,
abraço a noite,
descuido os pés,
Mordido o bicho,
veneno sem cura,
palavra lavra.

Desminto entesto o fundo não mente
só sabe a sina deserto sem sol,
não se põe do mundo nem se da montanha,
faz curva simples onde não te amanheces.

O peixe esquece,
as pedras dormem,
rio se segue,
sombra é verdade,
canoeiro desce,
eu meus interlúdios.

de-Talhos

Um brinde às flores recusadas,
um brinde às cartas de amor rasgadas.
Brilham muitos olhos e estrelas
as taças borradas de batom celebram suas indiferenças,
celebram a postura ereta com que se mentem.
E mentem o quanto podem
só pra enganar os medos. Tolice,
mais cartas serão escritas, lidas e queimadas. As flores,
secarão e quem sabe pétalas secas serão guardadas
entre páginas de livros que não tornaremos a ler.

Um brinde aos corações partidos,
um brinde aos corações intactos que ainda se partirão.
Intenciono meu copo cheio na lembrança dos cancioneros bêbados,
dos poetas tortos e dos amores abortados.

Salvo se eu bastasse, então não seria trágico,
mas não me basto. Tragédias de deuses e homens nos comovem
e nos justificam os males. Somos feitos de detalhes,
amamos e odiamos por detalhes: como escolher rasgar ou não aquela fotografia. Como
abrir os olhos antes de o beijo acabar.

meu calmo relógio

Meu relógio é calmo por outras urgências,
a vida é preciosa fora do tempo
enquanto as formigas andam em fila
e você sustenta toda sua graça na ponta dos pés.

Hoje me sinto mais rio do que mar,
mais vento do que fogo.

Quando eu canto é como descarrilhar
minha saudade. Não sei se ainda quero ser herói,
música na curva de um rio,
saudade na curva de um rio,
um rio na curva de um rio, uma pedra.

Uma melodia que lhe faça dançar
um olhar que se esconde como pode por medo de gostar... já gostou.
Saudade é palavra atemporal,
deixa eu ter saudade de semana passada
que o meu calmo relógio tem outras urgências
e não cuida do tempo, pousa num beijo cristalizado.

É o segredo de um outro segredo.

Crônica de um poeta sem caneta e papel

Um dia
você resolve tomar uma cerveja na rua
sem combinar nada com ninguém.
Não que você não queira nenhuma companhia em especial(e você não quer),
simplesmente porque você não está aflito
e isso é quase raro. A caminhada até o bar, nessas condições(inexistentes),
é absolutamente triunfal - a calma pulmonar.

No bar
o lugar da calçada, a mesa menos extravagante,
o garçom é um senhor que me parece bem simpático mesmo não sendo e que me lembra um personagem garçom de um filme que fosse inspirado nos personagens de Márquez e que talvez só por isso me pareça simpático.

Peço-lhe a cerveja mais barata, que a meu ver não é a pior, sendo que eu não julgo
pelo preço.
Como não há nada combinado, não é tarde nem é cedo. A cerveja quando bebida assim
sem quando é definitivamente mais gostosa. O poder que você se confere a si mesmo
ao se independer uma noite, te torna notável para as pessoas,
ou por elas te acharem triste(o que é mais comum)
ou
por te acharem estranho, o que é diferente de triste. Estranho,
de certa forma é só o princípio de outros conceitos e concepções. Estranho,
pode ser atraente ou louco ou imprevisível, o que é diferente de triste. Estranho,
é o fato de eu me referir ao interlocutor como "você" e "eu" alternadamente e isso poder ser considerado romântico. Eu sou romântico comigo mesmo. Ou melhor, com você.

Ah! Eu me divirto.
Quantas conversas bebendo uma cervejinha comigo mesmo.

Mas o fato é que a maior parte das pessoas te acham triste por beber sozinho,
certamente porque você só pode estar na fossa ou ser um doido e por isso não tem amigos. Porque
para elas só esses motivos justificam um homem beber sozinho ou só esses motivos seriam suficientes para que elas bebessem sozinhas. E então eu penso:
o que falta às pessoas é elas serem românticas consigo mesmo.

Besteira...

fica parecendo auto-ajuda, auto-romantismo. Não são românticos nem com as mulheres,
tanto que muitas se assustam quando não riem por parecer cafona ou ridículo. Não que tenha que necessariamente haver algo de cafona ou ridículo no romântico, mas aí eu lembro da Bethânia recitando o poema das cartas de amor ridículas das quais falava
o Pessoa e já pouco me importa que eu seja ridículo e até beire a cafonisse
ou que eu cometa pequenos delitos aos olhos dos outros, porque eu me sinto mais Fernando
e tomo mais um gole de gelada enquanto engulo olhares subjetivos.

Depois eu digo:
- Fernando Pessoa está acima de contestação! E ele me deu licença
para ser ridículo. Obrigado a todos, eu sou ridículo. Digo isso sorrindo como um canastrão.

Agora suspiro e penso: parece realmente que as melhores idéias, os melhores poemas,
os maiores delírios da palavra estavam todos lá, não lembro se era uma sexta ou um sábado a noite, mas eu fui sozinho, confiante, triunfal,

o garçom, o bar, a cerveja gelada e barata estavam lá, a inspiração igual uma menina
brincando nos meus olhos
e era uma encruzilhada, um lugar de poder, as mulheres passavam perfumadas
e me olhavam nos olhos, eu era um forasteiro solitário talvez estranhamente convidativo, eu estava repleto de poesias mas era um poeta sem papel e sem caneta,
com pensamentos que rasuravam e se sobrepunham uns aos outros
enquanto olhava as mulheres passarem e o triste vendedor de rosas vermelhas. Então pensei que na verdade o vendedor de rosas vermelhas vende rosas sozinho,
eu bebo sozinho,
e o vendedor de rosas vermelhas é mais triste do que eu. Eu vejo isso.

Acho que de agora em diante eu vou levar uma tristeza de vendedor de rosas, uns papéis no bolso e um lápis apontado já
até a metade, principalmente quando eu for sem quando e as condições não forem mais
que a cerveja barata e gelada.

poema dos nomes dos poemas

bilhete ideal poema apaixonado

as coisas

Minha pátria para José Saramago alquimia nossa história:
Dexistência, (Maio) Aurelianos e Arcadios
para Nequinho perdido, desconsagem

O que Há: mulher passante o ilógico necessário
entreaberto(das portas)
dos erros predigo:

Arte de Amar
alguma casa
Zaqueu ficou entardecido sobre corpos e almas

o que tenho,

Santanejo Latino America coração remendado...

Augustos os anjos pequena oração madrigal, desabafo.
Descaminhos

se

Elemento. Pensei desinvenção
épico.

Sobre todas as coisas e uma só: momento.
Soneto de retalhos declaração

d
e
s
c
o
n
c
e
r
t
a
d
o


TIC


TAC

na veia desenhando com palavras,
poetar sentido me repito


poesia.

bilhete

Eu queria dizer que nunca tinha entendido desse jeito
e que agora toda vez que ouço eu penso nisso.
Eu colecionei descobertas sobre coisas abandonadas,
guardei palavras eu soprei a poeira e esperei...
eu ainda penso e é melhor do que nada.
Agosto é um mês muito marcado,
a verdade é que eu quis gritar aquela hora
depois eu quis sentar na calçada e esperar...
Deu vontade de loucuras.
Também quis falar sobre isso,
acho que a loucura é um impulso de loucura,
filha da linguagem e que se eu ficar louco um dia,
vai ser como embaralhar as palavras com erros de separação silábica.
Parece aquele poema do Ferreira, aquele mesmo...
já tá até com uma orelha na página,
genial porque dava vontade de demorar eterno.
Sincero. Não entendo, porque é sempre assim comigo.

ideal

Eu queria uma casa com uma rede,
queria ver um filme de amor,
queria ler um livro de amor.
Eu queria compor uma canção de amor,
eu queria cantar sem letra o lalala do amor.
Eu queria que passasse um rio atrás de casa,
eu queria todos os dias ler um poema novo sobre o amor.
Eu queria sentar na calçada e olhar o tempo derramado,
eu queria receber um telefonema inesperado,
eu queria conhecer os seus motivos,
eu queria visitar Gabo em Cuba,
eu queria ter escrito o Pátria Minha de Vinícius,
eu queria pôr o pé na estrada,
eu queria dar a volta ao mundo.
Eu queria um jogo de cordas,
eu queria um beijo na chuva e um beijo no escuro,
eu queria fazer um gol no Maracanã,
eu queria o lado negro da lua,
eu queria uma chuva de estrelas cadentes e nenhum pedido,
eu queria cantar meu não sei.
Eu queria escrever como quem desenha palavras,
eu queria a reforma agrária,
eu queria um ideal comum ao povo,
eu queria a revolução,
eu queria um bem querer de simples,
eu queria que amor fosse a primeira e a última palavra de cada dia,
eu queria uma casa com uma rede,
eu queria ver um filme de amor,
eu queria ler um livro de amor,
eu queria compor uma canção de amor.