Deslimito justaposição de orgãos
recoloco-me em lugar algum
quase penso que saí do palco
aí é que nele piso?
sombra, olhos, inalação
coadjuvante de si
me busco entre as cortinas.
poema de meu caro amigo Diego Roberto
que eu tomei a liberda-de publicar e nomear.
Poema Ateu
Postado por
Vital
on segunda-feira, 30 de abril de 2012
/
Comments: (0)
Só mesmo um ser finito trás em si
o vazio reminiscente
capaz de recriar o impossível.
E de tudo que compõe o futuro,
só na arte perduramos.
Só na arte há o impossível,
e ultrapassamos o tempo, contrariamos deus.
Afora isso, nenhum herdeiro do mundo
significaria ao mesmo tempo que eterno - retorno.
o vazio reminiscente
capaz de recriar o impossível.
E de tudo que compõe o futuro,
só na arte perduramos.
Só na arte há o impossível,
e ultrapassamos o tempo, contrariamos deus.
Afora isso, nenhum herdeiro do mundo
significaria ao mesmo tempo que eterno - retorno.
Poema Ínfimo
Postado por
Vital
on sábado, 21 de abril de 2012
/
Comments: (0)
Desde que morri da eternidade
sofro do ínfimo,
sou irrisório à finitude
e contingente além dos sábados.
A última vez que me reconciliei
com meu domicílio intemporal
foi quando quis beijar tuas palavras,
não alcancei a substância etérea.
amei tua boca.
sofro do ínfimo,
sou irrisório à finitude
e contingente além dos sábados.
A última vez que me reconciliei
com meu domicílio intemporal
foi quando quis beijar tuas palavras,
não alcancei a substância etérea.
amei tua boca.
Poema Solitário
Postado por
Vital
on quarta-feira, 28 de março de 2012
/
Comments: (0)
"existe um espaço de silêncio intransponível mesmo nos mais íntimos amores."
Lya Luft
Sofro.
Sou incomensuravelmente solitário,
Existo no ermo entre as pessoas
esperançoso de não ter que ser compreendido - sem alheamento.
Amo a incerteza
cercado de grandes convictos.
Cuido que meu poema não rime,
que não lhes cause piedade ou comiseração.
Apenas percebam com olhos de cachorro
minha ilha sem pontes.
Lya Luft
Sofro.
Sou incomensuravelmente solitário,
Existo no ermo entre as pessoas
esperançoso de não ter que ser compreendido - sem alheamento.
Amo a incerteza
cercado de grandes convictos.
Cuido que meu poema não rime,
que não lhes cause piedade ou comiseração.
Apenas percebam com olhos de cachorro
minha ilha sem pontes.
Porque Estamos Entregues
Postado por
Vital
on quinta-feira, 15 de março de 2012
/
Comments: (0)
Não somos mais do que as memórias do que fizemos,
do que não fizemos,
arrependimentos sobre a própria condição
de existir e significar.
Ah, como doemo-nos vaidosamente na solidão remota,
como nos super-estimamos na fraternidade de um "bom dia",
simplesmente porque se não o fizéssemos talvez o mundo parasse de funcionar,
talvez precisássemos de construir mais árvores.
Que infeliz projeto,
não coubemos no mundo - que foi feito sem tamanho.
Mas ainda assim, me absurdo, me absurdo face ao meu próprio ser perplexo,
me absurdo porque palavras desgastam-se,
como qualquer engrenagem, como qualquer desespero, que se ameniza,
como se o ensaio falasse a verdade presa no medo,
subordinada à coragem! suspensa aos valores,
porque precisamos e nada mais.
do que não fizemos,
arrependimentos sobre a própria condição
de existir e significar.
Ah, como doemo-nos vaidosamente na solidão remota,
como nos super-estimamos na fraternidade de um "bom dia",
simplesmente porque se não o fizéssemos talvez o mundo parasse de funcionar,
talvez precisássemos de construir mais árvores.
Que infeliz projeto,
não coubemos no mundo - que foi feito sem tamanho.
Mas ainda assim, me absurdo, me absurdo face ao meu próprio ser perplexo,
me absurdo porque palavras desgastam-se,
como qualquer engrenagem, como qualquer desespero, que se ameniza,
como se o ensaio falasse a verdade presa no medo,
subordinada à coragem! suspensa aos valores,
porque precisamos e nada mais.
trecho de "Viva o Povo Brasileiro" de João Ubaldo Ribeiro
Postado por
Vital
on quinta-feira, 1 de março de 2012
/
Comments: (0)
"(...) - Mas não é só por isso - respondeu ele - É também porque quero ir.
- Sim, eu sei, essa vontade também me dá - falou ela, para grande espanto dele, que esperava pelo menos uma risada irônica. - Eu sei que é verdade tudo o que pensamos sobre essa guerra e tudo o que pensamos sobre a situação de nossa terra, mas também esta é a nossa terra, é até principalmente nossa, que somos quase todos os que nasceram e vivem nela. Portanto, há alguma coisa nessa guerra que também é nossa, é a nossa terra, ou será um dia a nossa terra. Temos que resolver pelo que nós achamos, pelas nossas idéias, porque isso é necessário, mas não podemos esconder outras coisas, talvez miúdas, mas sempre existentes. Eu também sinto um arrepio quando se fala no Brasil, quando ouço os hinos e vejo o povo levantar os olhos para a bandeira. Pois não é nossa bandeira e é nossa bandeira. Eu é que não posso ir: sou mulher, sou bandida e tenho uma responsabilidade mais importante. Se eu deixar que essas idéias caiam, como vai ser? Mas tu não, tu podes ir, tu tens que viver isso também, lutar pelo que se ama sem se poder amar, pelo que é da gente mas se vira contra a gente, é de quem nos comanda na guerra para nos dominar na paz. É isso mesmo, talvez a vida seja assim, talvez tu aprendas alguma coisa que nos possa ensinar.
- Nunca pensei...
- Eu já, eu vivo pensando, eu já imaginava que tu ia querer ir, desde o Sete de Janeiro em que nosso pessoal esteve em Itaparica fantasiado de caboclada. E também penso o seguinte: será que, com essa guerra, as coisas não vão melhorar? O Exército tem sido sempre um bando de maltrapilhos desordeiros comandados por estrangeiros que desprezam tudo aqui, recheado de mercenários também estrangeiros, que também tudo desprezam. O Exército, que é de gente do povo, tem sido sempre a pior arma contra o povo, mais do que a polícia, mais do que a inquisição. E assim mesmo os poderosos maltratam os militares, não os querem receber em suas mansões, não querem suas filhas casadas com eles, não querem seus filhos na companhia deles. Talvez agora o Exército compreenda, depois de sacrificar-se pelos que ficarão em casa engordando, criticando suas ações e lhes enviando ordens impossíveis de cumprir, talvez agora compreenda que não pertence aos senhores, mas ao povo, não é a Guarda Nacional, mas a Guarda do Povo, não é a arma contra o povo, mas a arma para o povo. Talvez agora compreenda que o lado dele é o nosso lado, não o lado daqueles a quem serve, nem sequer a troco de migalhas, quanto mais da honra de servir seu próprio povo. Muitos deles voltarão heróis, cobertos de glórias e lendas, nenhum deles será mais o mesmo, depois dessa guerra. E tenhamos a esperança de que passem a ser como devem ser, passem a ser o Exército do Povo. Sim, vai, vai lutar no Paraguai, vai alentar teu pai, vai aprender fazendo e vivendo. Eu não tive pai, mas tive meu avô, que foi mais do que um pai, e uma vez ele fez comigo o que estou fazendo contigo agora. Vai, faz, aprende, ensina."
- Sim, eu sei, essa vontade também me dá - falou ela, para grande espanto dele, que esperava pelo menos uma risada irônica. - Eu sei que é verdade tudo o que pensamos sobre essa guerra e tudo o que pensamos sobre a situação de nossa terra, mas também esta é a nossa terra, é até principalmente nossa, que somos quase todos os que nasceram e vivem nela. Portanto, há alguma coisa nessa guerra que também é nossa, é a nossa terra, ou será um dia a nossa terra. Temos que resolver pelo que nós achamos, pelas nossas idéias, porque isso é necessário, mas não podemos esconder outras coisas, talvez miúdas, mas sempre existentes. Eu também sinto um arrepio quando se fala no Brasil, quando ouço os hinos e vejo o povo levantar os olhos para a bandeira. Pois não é nossa bandeira e é nossa bandeira. Eu é que não posso ir: sou mulher, sou bandida e tenho uma responsabilidade mais importante. Se eu deixar que essas idéias caiam, como vai ser? Mas tu não, tu podes ir, tu tens que viver isso também, lutar pelo que se ama sem se poder amar, pelo que é da gente mas se vira contra a gente, é de quem nos comanda na guerra para nos dominar na paz. É isso mesmo, talvez a vida seja assim, talvez tu aprendas alguma coisa que nos possa ensinar.
- Nunca pensei...
- Eu já, eu vivo pensando, eu já imaginava que tu ia querer ir, desde o Sete de Janeiro em que nosso pessoal esteve em Itaparica fantasiado de caboclada. E também penso o seguinte: será que, com essa guerra, as coisas não vão melhorar? O Exército tem sido sempre um bando de maltrapilhos desordeiros comandados por estrangeiros que desprezam tudo aqui, recheado de mercenários também estrangeiros, que também tudo desprezam. O Exército, que é de gente do povo, tem sido sempre a pior arma contra o povo, mais do que a polícia, mais do que a inquisição. E assim mesmo os poderosos maltratam os militares, não os querem receber em suas mansões, não querem suas filhas casadas com eles, não querem seus filhos na companhia deles. Talvez agora o Exército compreenda, depois de sacrificar-se pelos que ficarão em casa engordando, criticando suas ações e lhes enviando ordens impossíveis de cumprir, talvez agora compreenda que não pertence aos senhores, mas ao povo, não é a Guarda Nacional, mas a Guarda do Povo, não é a arma contra o povo, mas a arma para o povo. Talvez agora compreenda que o lado dele é o nosso lado, não o lado daqueles a quem serve, nem sequer a troco de migalhas, quanto mais da honra de servir seu próprio povo. Muitos deles voltarão heróis, cobertos de glórias e lendas, nenhum deles será mais o mesmo, depois dessa guerra. E tenhamos a esperança de que passem a ser como devem ser, passem a ser o Exército do Povo. Sim, vai, vai lutar no Paraguai, vai alentar teu pai, vai aprender fazendo e vivendo. Eu não tive pai, mas tive meu avô, que foi mais do que um pai, e uma vez ele fez comigo o que estou fazendo contigo agora. Vai, faz, aprende, ensina."
Um Lugar Ao Sol
Postado por
Vital
on quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
/
Comments: (0)
O vosso correspondente em Roma não se encontra em Roma. Em Roma não há ninguém. Fugiram todos à praia em gozo de sol e férias. Sigo a multidão com minha tenda, meu trapézio e meus leões. Essa é a vida de artista, correr aonte está o público para poder fingir que é o público a nos correr atrás. Dia desse baixei em Capri, que, segundo o cicerone, ostenta as praias mais lindas do mundo depois do Rio de Janeiro. Comovido, agradeci, dobrei a gorjeta e fui conferir. Realmente o azul do mar, com as rochas brancas e a mata cheirosa, é um espetáculo único. Mas ir à praia, aí é que são elas. Convenci-me de que brasileiro não sabe tomar banho de mar, e olha que tive o maior empenho em aprender.
- Paga-se a entrada!! Pois não. Paga-se o vestiário? Pois não.
O mictório também? Não tem problema.
Entrada, vestiário, mictório, guarda-sol, cadeira, bóia, desci à praia cheio de tickets e privilégios. Irrepreensível, pensei. Agora que descobri os macetes é só deitar na areia, comprar um chica-bom e pensar besteira, igual a Copacabana. Mas qual não foi a minha surpresa quando cheguei à areia (pedregulhos) e a encontrei literalmente repleta de cabeças, pernas, barrigas e bumbuns. Tentrei abrir caminho, pedi um passinho à frente, por favor, disse que ia saltar no próximo ponto, mas os corpos estavam surdo-moles no mormaço. Recuei alguns metros, pisei nas partes de uma senhora e subi os degraus de volta. Lá em cima, sobre o cimento, havia um colchão de ar jogado à toa. Deitei e ameacei um cochilo mas o bilheteiro balneário veio perguntar em inglês se eu era da família americana. À minha primeira pronúncia ficou evidente que eu não era não de tão boa família, diante do que fui convidado a me retirar do colchão esplêndido. Nisso me revoltei bradando que queria um lugar ao sol, queria um lugar ao sol, frase que aprendi nos bastidores da televisão. Na minha terra, insisti, a praia é do povo como o céu é do condor.
- Mas aqui o colchão é dos americanos - disse o bilheteiro friamente.
Eu não ia discutir, ainda mais que os americanos tinham acabado de invadir a lua, uns dias antes. Eu não ia discutir por causa dum colchão de ar. Não discuti mas fiquei com aquilo atravessado na garganta, por isso fui até o bar para engolir melhor. Uma droga dum colchão de ar. Sentei no bar e fiquei vendo os americanos prostrados ao sol. Pareciam cada vez mais bonitos, saudáveis, bronzeados, e eu muito cinzento e verde. Assim passavam-se as horas e nada de vagar um só buraquinho. Pelo contrário, chegavam sempre novos banhistas, desses gordos, sem ossos, gelatinas. Iam falando please e acabavam se encaixando. O aglomerado já formava uma massa tão comprimida que dali a pouco, com mais um aperto, dava a impressão que uns e outros iam estourar para o alto que nem pipoca. E quando alguém se levantava, deixava sempre um chapéu para garantir a vaga. Às cinco e meia resolvi desistir mas aí abriram um primeiro espaço. Saiu um, saíram dois, saí eu e corri a reservar meus pedregulhos. Sobrou uma cadeira, tomei conta. Apossei-me duma bola, dum colchão, dum guarda-sol, tudo junto. Afinal eu tinha os tickets, estava no meu direito. Só achei estranho aquele êxodo assim precipitado, pois em poucos minutos eu estava sozinho na praia. Engraçado, porque americano não é de abandonar um bom lugar sem mais nem menos. Que diabo, se eles foram embora é porque algo de ruim vem por aí. Pensei em chuva, tempestade, tubarão, mas nada. Só os bilheteiros que estavam recolhendo tudo, o bar que estava fechando, o último ônibus que estava partindo e eu que estava sendo expulso. Expulsão não é bem a palavra, não é exata. Mas ficam aqueles garçons resmungando e olhando para a sua cara. E vem aquele empregado mandando você erguer os pés, os dois ao mesmo tempo, para passar o escovão debaixo. Como boteco de português à meia-noite. Que é isso, perguntei, vai fechar a praia? Pois é claro, disse o empregado, às seis horas nós fechamos tudo. E continuou a esfregar sabão na praia. Não era o caso de contestar a organização lá deles, mas confesso que fiquei perturbado. Ainda mais quando, ao deixar o local, olhei para o mar e vi o que vi. Aliás, não sei se vi mesmo, é difícil acreditar. Vai ver que o sol me batera na cabeça de mau jeito. Ou então fora o gim, sei lá, gim é uma bebida desleal. Não posso jurar nem peço que me creiam, mas o que vi foi o seguinte: o mar esvaziando, esvaziando, os barcos acomodando-se entre as pedras e o Mediterrâneo sendo chupado pelo ralo, dando lugar a magníficas auto-estradas, caminhões, ferrovias, semáforos, supermercados, perdendo-se de vista no horizonte.
Crônica de Chico Buarque
- Paga-se a entrada!! Pois não. Paga-se o vestiário? Pois não.
O mictório também? Não tem problema.
Entrada, vestiário, mictório, guarda-sol, cadeira, bóia, desci à praia cheio de tickets e privilégios. Irrepreensível, pensei. Agora que descobri os macetes é só deitar na areia, comprar um chica-bom e pensar besteira, igual a Copacabana. Mas qual não foi a minha surpresa quando cheguei à areia (pedregulhos) e a encontrei literalmente repleta de cabeças, pernas, barrigas e bumbuns. Tentrei abrir caminho, pedi um passinho à frente, por favor, disse que ia saltar no próximo ponto, mas os corpos estavam surdo-moles no mormaço. Recuei alguns metros, pisei nas partes de uma senhora e subi os degraus de volta. Lá em cima, sobre o cimento, havia um colchão de ar jogado à toa. Deitei e ameacei um cochilo mas o bilheteiro balneário veio perguntar em inglês se eu era da família americana. À minha primeira pronúncia ficou evidente que eu não era não de tão boa família, diante do que fui convidado a me retirar do colchão esplêndido. Nisso me revoltei bradando que queria um lugar ao sol, queria um lugar ao sol, frase que aprendi nos bastidores da televisão. Na minha terra, insisti, a praia é do povo como o céu é do condor.
- Mas aqui o colchão é dos americanos - disse o bilheteiro friamente.
Eu não ia discutir, ainda mais que os americanos tinham acabado de invadir a lua, uns dias antes. Eu não ia discutir por causa dum colchão de ar. Não discuti mas fiquei com aquilo atravessado na garganta, por isso fui até o bar para engolir melhor. Uma droga dum colchão de ar. Sentei no bar e fiquei vendo os americanos prostrados ao sol. Pareciam cada vez mais bonitos, saudáveis, bronzeados, e eu muito cinzento e verde. Assim passavam-se as horas e nada de vagar um só buraquinho. Pelo contrário, chegavam sempre novos banhistas, desses gordos, sem ossos, gelatinas. Iam falando please e acabavam se encaixando. O aglomerado já formava uma massa tão comprimida que dali a pouco, com mais um aperto, dava a impressão que uns e outros iam estourar para o alto que nem pipoca. E quando alguém se levantava, deixava sempre um chapéu para garantir a vaga. Às cinco e meia resolvi desistir mas aí abriram um primeiro espaço. Saiu um, saíram dois, saí eu e corri a reservar meus pedregulhos. Sobrou uma cadeira, tomei conta. Apossei-me duma bola, dum colchão, dum guarda-sol, tudo junto. Afinal eu tinha os tickets, estava no meu direito. Só achei estranho aquele êxodo assim precipitado, pois em poucos minutos eu estava sozinho na praia. Engraçado, porque americano não é de abandonar um bom lugar sem mais nem menos. Que diabo, se eles foram embora é porque algo de ruim vem por aí. Pensei em chuva, tempestade, tubarão, mas nada. Só os bilheteiros que estavam recolhendo tudo, o bar que estava fechando, o último ônibus que estava partindo e eu que estava sendo expulso. Expulsão não é bem a palavra, não é exata. Mas ficam aqueles garçons resmungando e olhando para a sua cara. E vem aquele empregado mandando você erguer os pés, os dois ao mesmo tempo, para passar o escovão debaixo. Como boteco de português à meia-noite. Que é isso, perguntei, vai fechar a praia? Pois é claro, disse o empregado, às seis horas nós fechamos tudo. E continuou a esfregar sabão na praia. Não era o caso de contestar a organização lá deles, mas confesso que fiquei perturbado. Ainda mais quando, ao deixar o local, olhei para o mar e vi o que vi. Aliás, não sei se vi mesmo, é difícil acreditar. Vai ver que o sol me batera na cabeça de mau jeito. Ou então fora o gim, sei lá, gim é uma bebida desleal. Não posso jurar nem peço que me creiam, mas o que vi foi o seguinte: o mar esvaziando, esvaziando, os barcos acomodando-se entre as pedras e o Mediterrâneo sendo chupado pelo ralo, dando lugar a magníficas auto-estradas, caminhões, ferrovias, semáforos, supermercados, perdendo-se de vista no horizonte.
Crônica de Chico Buarque
