Um Lugar Ao Sol

O vosso correspondente em Roma não se encontra em Roma. Em Roma não há ninguém. Fugiram todos à praia em gozo de sol e férias. Sigo a multidão com minha tenda, meu trapézio e meus leões. Essa é a vida de artista, correr aonte está o público para poder fingir que é o público a nos correr atrás. Dia desse baixei em Capri, que, segundo o cicerone, ostenta as praias mais lindas do mundo depois do Rio de Janeiro. Comovido, agradeci, dobrei a gorjeta e fui conferir. Realmente o azul do mar, com as rochas brancas e a mata cheirosa, é um espetáculo único. Mas ir à praia, aí é que são elas. Convenci-me de que brasileiro não sabe tomar banho de mar, e olha que tive o maior empenho em aprender.

- Paga-se a entrada!! Pois não. Paga-se o vestiário? Pois não.

O mictório também? Não tem problema.

Entrada, vestiário, mictório, guarda-sol, cadeira, bóia, desci à praia cheio de tickets e privilégios. Irrepreensível, pensei. Agora que descobri os macetes é só deitar na areia, comprar um chica-bom e pensar besteira, igual a Copacabana. Mas qual não foi a minha surpresa quando cheguei à areia (pedregulhos) e a encontrei literalmente repleta de cabeças, pernas, barrigas e bumbuns. Tentrei abrir caminho, pedi um passinho à frente, por favor, disse que ia saltar no próximo ponto, mas os corpos estavam surdo-moles no mormaço. Recuei alguns metros, pisei nas partes de uma senhora e subi os degraus de volta. Lá em cima, sobre o cimento, havia um colchão de ar jogado à toa. Deitei e ameacei um cochilo mas o bilheteiro balneário veio perguntar em inglês se eu era da família americana. À minha primeira pronúncia ficou evidente que eu não era não de tão boa família, diante do que fui convidado a me retirar do colchão esplêndido. Nisso me revoltei bradando que queria um lugar ao sol, queria um lugar ao sol, frase que aprendi nos bastidores da televisão. Na minha terra, insisti, a praia é do povo como o céu é do condor.

- Mas aqui o colchão é dos americanos - disse o bilheteiro friamente.

Eu não ia discutir, ainda mais que os americanos tinham acabado de invadir a lua, uns dias antes. Eu não ia discutir por causa dum colchão de ar. Não discuti mas fiquei com aquilo atravessado na garganta, por isso fui até o bar para engolir melhor. Uma droga dum colchão de ar. Sentei no bar e fiquei vendo os americanos prostrados ao sol. Pareciam cada vez mais bonitos, saudáveis, bronzeados, e eu muito cinzento e verde. Assim passavam-se as horas e nada de vagar um só buraquinho. Pelo contrário, chegavam sempre novos banhistas, desses gordos, sem ossos, gelatinas. Iam falando please e acabavam se encaixando. O aglomerado já formava uma massa tão comprimida que dali a pouco, com mais um aperto, dava a impressão que uns e outros iam estourar para o alto que nem pipoca. E quando alguém se levantava, deixava sempre um chapéu para garantir a vaga. Às cinco e meia resolvi desistir mas aí abriram um primeiro espaço. Saiu um, saíram dois, saí eu e corri a reservar meus pedregulhos. Sobrou uma cadeira, tomei conta. Apossei-me duma bola, dum colchão, dum guarda-sol, tudo junto. Afinal eu tinha os tickets, estava no meu direito. Só achei estranho aquele êxodo assim precipitado, pois em poucos minutos eu estava sozinho na praia. Engraçado, porque americano não é de abandonar um bom lugar sem mais nem menos. Que diabo, se eles foram embora é porque algo de ruim vem por aí. Pensei em chuva, tempestade, tubarão, mas nada. Só os bilheteiros que estavam recolhendo tudo, o bar que estava fechando, o último ônibus que estava partindo e eu que estava sendo expulso. Expulsão não é bem a palavra, não é exata. Mas ficam aqueles garçons resmungando e olhando para a sua cara. E vem aquele empregado mandando você erguer os pés, os dois ao mesmo tempo, para passar o escovão debaixo. Como boteco de português à meia-noite. Que é isso, perguntei, vai fechar a praia? Pois é claro, disse o empregado, às seis horas nós fechamos tudo. E continuou a esfregar sabão na praia. Não era o caso de contestar a organização lá deles, mas confesso que fiquei perturbado. Ainda mais quando, ao deixar o local, olhei para o mar e vi o que vi. Aliás, não sei se vi mesmo, é difícil acreditar. Vai ver que o sol me batera na cabeça de mau jeito. Ou então fora o gim, sei lá, gim é uma bebida desleal. Não posso jurar nem peço que me creiam, mas o que vi foi o seguinte: o mar esvaziando, esvaziando, os barcos acomodando-se entre as pedras e o Mediterrâneo sendo chupado pelo ralo, dando lugar a magníficas auto-estradas, caminhões, ferrovias, semáforos, supermercados, perdendo-se de vista no horizonte.


Crônica de Chico Buarque

Ode ao Absurdo

Eu não quero ler o que vocês escrevem. Estou cansado de sustentar o fardo da simpatia, da atenciosidade, do tom de voz ameno que emprego ao telefone ou na padaria; quando diante de senhorinhas frágeis e caducas, como a falsear uma benevolência cristã que me foi imposta diariamente desde o nascimento - meu parto pagão. Eu sou o egoísta, o vaidoso; do alto da minha soberba filosófico-literária que permanece incompreendida aos olhos dos passantes, dos supostos devoradores de clássicos, dos patéticos diários expostos, eu escarro a minha mais alveolar indiferença, me enfastio e escrevo. Não para exterminar o tédio, nem para fazer dele matéria de minha crônica, mas simplesmente para ser lido, ser lido e adorado pela cara das palavras que escolho copiosamente e sob as quais me escondo do risco de ser apreendido; me resguardo de perder a alma na distância existente entre a palavra que alguém lê e o silêncio que escrevi. Renuncio à adulação dos elogios barganhados no salão estéril das harpias, quero ser lido apenas. Sou um perversor de palavras destituído de propósitos, quero não mais que a floração sexual de palavras arrevesadas, vadias. Sou o condenado provocador de parricídios, o absurdo que não coube no código de ética e escorreu nos panos nobres, manchou de porra a alvura da seda islâmica, a obscuridade do hábito clerical; sou eu o feiticeiro que sem pudor ergueu o sexo para um mundo de anjos celibatários. Eu sou o louco que preferiu libertar Barrabás a Jesus Cristo. Eu sou o louco que gargalhava desesperadoramente ante as traições romanas. Eu sou a navalha entre os dedos do pé de Madame Satã, sou a inconseqüência que move e mata o mundo na desmedida concomitância de cães no cio. Eu sou o narciso, o dionísio nietzschiano que empunha o martelo debaixo de um temporal de vinho e putas decaídas, deliradas de virtudes pecaminosas, insaciáveis em seu desejo de desafiar deus. Eu sou a primeira pedra atirada para qualquer lado. Sou o lado algum. O pregador babilônio que segue impune, destruindo famílias, religiões, outdoors, como quem não quer a aparente tranqüilidade da vida, a normalidade bordada nos uniformes comprados anualmente. As máscaras estão todas perdidas, indissimuláveis, e isso não tem nada a ver com Apolo, trata-se do abismo secular da existência. Eu estou em Sodoma e Gomorra simultaneamente, gozando meus últimos impropérios enquanto o arcanjo estivador ateia fogo ao paraíso e cega a urgência dos homens que se excederam em olhar. Eu estou em Sodoma e Gomorra simultaneamente e brindo à minha última orgia que é farta e grandiosa face à ira arrasadora do deus que pilha e saqueia os prazeres alheios contidos na sua desonrosa criação. Eu não quero ascender ao Olympo para o banquete dos deuses, nem repousar nos campos Elíseos ao lado dos bravios e vencedores heróis inventados. Eu estou no lixão, no esgoto halogêneo, confrontando a precariedade do homem - de mim mesmo. Eu vivo a contenda atemporal entre mim e eu mesmo. Eu não estou. Quero que não me leiam mais, que não me decifrem mais, enquanto miro esse deserto de sal à exaustão ocular e nada mais reste apesar de minhas retinas intactas. Quero ser o primeiro a esquecer absolutamente de mim para não ter que dividir essa importância com mais ninguém.

Corpóreo

Só quando soubermos nossos corpos,
depois de resignificarmos nossas palavras,
e nossos dicionários estiverem devidamente revistos,
poderemos nos sentar à mesa
sem deter nossos instintos,
fora dos limites, fora dos relógios.

Quando além for um sinônimo
de menos - porque o passado foi o princípio
de um erro contado diariamente -
compreensão.

Essa pretensão soberba
de acertar escolhas, de escolher amores, amigos e falar alto
pra dar mais verdade
a essas idéias tão profundamente intrincadas;
como se eles soubessem a fórmula
de alguma poção mágica
e a guardassem a salvo dos patetas,
vis, ordinários e miseráveis,
dentro de conceitos esculpidos cuidadosamente
através dos séculos,
No fundo de uma postura enciclopédica
que dissimula objetivos torpes,
porque o mundo é uma seara orgulhosa onde só os eleitos
têm vez.

Amantes

Dois inimigos. É assim que Carlos Drummond de Andrade define os amantes, no poema Destruição, no qual diz também que são meninos estragados pelo mimo de amar. São, mas não apenas isso.

Os amantes são narcisos, amam-se no outro, procuram nos que amam a certeza de que são amáveis.

Os amantes riem muito, e choram, são extremados na dúvida, na paixão, no ciúme – porque o amor é um descontrole.

Os amantes interferem na paisagem, atrapalham quem fica atrás na poltrona do cinema, retardam o trânsito no sinal verde, chocam os pudicos, impedem a passagem – porque não podem adiar um beijo.

Os amantes ouvem estrelas, pálidos de espanto.

Os amantes são namorados, noivos, par, casal, cônjuges, senhor e senhora, marido e mulher, caso, companheiros, affaire.

Os amantes escrevem seu amor nos muros, no último andar dos prédios, nos viadutos, nos jornais, nas faixas de rua – porque não conseguem guardar só para si aquele desconforto.

Os amantes riem até sem motivo, o que passa a ser um motivo.

Os amantes que se casaram são ameaçados de dia pela rotina, pelos parentes, por erros banais do tipo bife salgado, pelos azares do trânsito, pela conta do telefone – mas de noite esquecem.

Os amantes inventam toques, aconchegos, maravilhas, em modesta porém valiosa contribuição à cultura universal.

Os amantes cochilam de dia.

Os amantes compreendem os assassinatos, a doçura, a entrega, a covardia, a renúncia, a loucura, as perversões, a sordidez, a tragédia, a comédia, o ridículo, o sublime, o ódio, o suicídio, o drama, o sacrifício, todos os excessos humanos – porque há um pouco de tudo isso no amor.

Os amantes espicaçam-se como abelhas.

Os amantes adúlteros carregam culpas que impedem sua felicidade, mas tentam, tentam, e no tentar mais se agarram, e mais se afundam, e se debatem como dois náufragos.

Os quase amantes sabem aonde querem chegar, e vão indo.

Os amantes são obra de puro acaso, como tudo, pois tudo é formado por átomos que se encontraram há bilhões de anos e se agruparam em um corpo, vivo ou mineral, doce ou ácido, feliz ou infeliz.

Os amantes são egoístas aos pares.

Os amantes tendem a relaxamentos: acordam tarde, comem mal, descuidam-se dos amigos, faltam ao trabalho, perdem a média na matemática.

Os amantes confiam um no outro – e desconfiam com a mesma cegueira.

Os amantes dividem tudo: um doce, um copo de água, um aluguel, um crime.

Os amantes que têm filhos cortam grandes fatias do coração para as crianças, mas o coração não diminui, acrescenta-se, cresce de novo como rabo de lagartixa, para acomodar a pessoa amada.

Os amantes procuram-se como viciados.

Os amantes correm muitos riscos: de ferir o outro, de entender mal, de esperar demais ou de menos, de não suportar um não, de morrer de paixão. Por isso têm aquele ar aceso, para não errar.

Os amantes estão à beira de um abismo e olham o fundo, fascinados.

Os amantes esquecem a luz acesa, o fogão ligado, a torneira jorrando, o telefone fora do gancho... – nada é mais urgente.

Os amantes não chegaram prontos e acabados. Esculpiram-se, cada um tomou uma peça bruta e a moldou a seu gosto, desbastou imperfeições, poliu traços, gestos e humores. (Paul Éluard: "Qual de nós dois inventou o outro?".)

Os amantes são felizes às segundas, quartas e sextas-feiras, e infelizes às terças, quintas e sábados – e no domingo eles descansam, que ninguém é de ferro.




Crônica de Ivan Ângelo

Reabilitação da Linguagem

É pela frase que eu começo.
Minha intenção é de profundidades –
a transcendência das linguagens –
que contam sentimentos ancestrais,
entre folhas de bananeiras
habilitadas para insetos.
É coisa que não se diz com boca,
isso boca não sabe dizer.
Nem valeria tanta matéria pura
repetida sem estilo.
Se eu palavreasse esse cheiro fundo
era mais um cuspe, mais um dejeto.

Falar da morte é um depois pra trás.
Pensar no medo não é sentir,
por isso coçar a canela
e assoar o nariz revelam o oculto.
São coisas que minha mão
me disse antes de fugir.

O Corpo são essas vontades.

Quando li Manoel de Barros,
quase não quis descoser escritos.
Desvirginar folhas em branco
com pequenos acertos respeitadores
ou com um verso limpo
que não fosse adúltero.
Seu nada aquático me poesiou.
E o escuro andou pela desimportância,
fiz paráfrase de cotovelo:
- descobri existência na unha cortada.

No mundo todos querem falar
e cansam o dormir das pedras.
Eu quero ser ouvido por lagartos.
Meu distanciamento de entender
quer desentranhar perplexidades de peixe.
O peixe se espanta diante de um pé,
como uma pedra sobressaltada.

Sou velador de pedras dormidas.
Quero pessoa que inventa verdades sem objeto,
pessoa com perplexidade de peixe.
Não é só fabricar uma ilusão amarela,
é advogar em saudade do caramujo.
A terra mijou muitos rios.
As pessoas estão encharcadas de nuvem.
Não vejo o Nada
no dizer de etnociências.
O silêncio se instalou em mim o seu olhar.

Parecer Fenomenológico Existencialista

No fundo a gente não sabe nunca
só na hora da morte, quando a intenção abandona o corpo,
deixa de habitá-lo,
o homem morre quando ele perde a capacidade
de projetar o seu olhar sobre as coisas,
por vezes o homem morre antes do corpo.



* Nota pedagógica: a repetição exaustiva de questões já apreendidas abre brechas para erros induzidos que ganham substância na linguagem.

As Carolas de Vila Rica

O absurdo de súbito rompeu com as vozes
das senhoras recatadas em suas mortalhas lutuosas
e subiu muito além dos muros e telhados
que guardaram essas pobres ovelhas por tantos invernos
à salvo! do bem e do mal, dos perigos da carne;
pastando cabisbaixas sem comer a raiva ou o sal
[apenas o obedecimento]
e essa gratidão silenciosa por não morrer antes do tempo,
por tua proteção e tua palmatória que as mantém à salvo do inimigo,
à salvo de serem salvas;
do fascínio nadificante exercido pelo abismo,
da traição que cada um carrega na testa,
da vontade alucinada de pular e não cair jamais.

Casas tão profundamente edificadas feitas de pura metafísica
conservando taciturnas expressões de pedra e penumbra
como que para adorar a privação inutilmente fracassada,
porque regozijam-se ao ver tua satisfação em estrepar-lhes o couro,
porque querem e reivindicam o limbo eterno!

Já não podem mais o paraíso das belezas intocáveis
e até preferem as dores da penitência
ao pudor de não sentir nada.