Dois inimigos. É assim que Carlos Drummond de Andrade define os amantes, no poema Destruição, no qual diz também que são meninos estragados pelo mimo de amar. São, mas não apenas isso.
Os amantes são narcisos, amam-se no outro, procuram nos que amam a certeza de que são amáveis.
Os amantes riem muito, e choram, são extremados na dúvida, na paixão, no ciúme – porque o amor é um descontrole.
Os amantes interferem na paisagem, atrapalham quem fica atrás na poltrona do cinema, retardam o trânsito no sinal verde, chocam os pudicos, impedem a passagem – porque não podem adiar um beijo.
Os amantes ouvem estrelas, pálidos de espanto.
Os amantes são namorados, noivos, par, casal, cônjuges, senhor e senhora, marido e mulher, caso, companheiros, affaire.
Os amantes escrevem seu amor nos muros, no último andar dos prédios, nos viadutos, nos jornais, nas faixas de rua – porque não conseguem guardar só para si aquele desconforto.
Os amantes riem até sem motivo, o que passa a ser um motivo.
Os amantes que se casaram são ameaçados de dia pela rotina, pelos parentes, por erros banais do tipo bife salgado, pelos azares do trânsito, pela conta do telefone – mas de noite esquecem.
Os amantes inventam toques, aconchegos, maravilhas, em modesta porém valiosa contribuição à cultura universal.
Os amantes cochilam de dia.
Os amantes compreendem os assassinatos, a doçura, a entrega, a covardia, a renúncia, a loucura, as perversões, a sordidez, a tragédia, a comédia, o ridículo, o sublime, o ódio, o suicídio, o drama, o sacrifício, todos os excessos humanos – porque há um pouco de tudo isso no amor.
Os amantes espicaçam-se como abelhas.
Os amantes adúlteros carregam culpas que impedem sua felicidade, mas tentam, tentam, e no tentar mais se agarram, e mais se afundam, e se debatem como dois náufragos.
Os quase amantes sabem aonde querem chegar, e vão indo.
Os amantes são obra de puro acaso, como tudo, pois tudo é formado por átomos que se encontraram há bilhões de anos e se agruparam em um corpo, vivo ou mineral, doce ou ácido, feliz ou infeliz.
Os amantes são egoístas aos pares.
Os amantes tendem a relaxamentos: acordam tarde, comem mal, descuidam-se dos amigos, faltam ao trabalho, perdem a média na matemática.
Os amantes confiam um no outro – e desconfiam com a mesma cegueira.
Os amantes dividem tudo: um doce, um copo de água, um aluguel, um crime.
Os amantes que têm filhos cortam grandes fatias do coração para as crianças, mas o coração não diminui, acrescenta-se, cresce de novo como rabo de lagartixa, para acomodar a pessoa amada.
Os amantes procuram-se como viciados.
Os amantes correm muitos riscos: de ferir o outro, de entender mal, de esperar demais ou de menos, de não suportar um não, de morrer de paixão. Por isso têm aquele ar aceso, para não errar.
Os amantes estão à beira de um abismo e olham o fundo, fascinados.
Os amantes esquecem a luz acesa, o fogão ligado, a torneira jorrando, o telefone fora do gancho... – nada é mais urgente.
Os amantes não chegaram prontos e acabados. Esculpiram-se, cada um tomou uma peça bruta e a moldou a seu gosto, desbastou imperfeições, poliu traços, gestos e humores. (Paul Éluard: "Qual de nós dois inventou o outro?".)
Os amantes são felizes às segundas, quartas e sextas-feiras, e infelizes às terças, quintas e sábados – e no domingo eles descansam, que ninguém é de ferro.
Crônica de Ivan Ângelo
Reabilitação da Linguagem
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Vital
on sábado, 24 de setembro de 2011
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É pela frase que eu começo.
Minha intenção é de profundidades –
a transcendência das linguagens –
que contam sentimentos ancestrais,
entre folhas de bananeiras
habilitadas para insetos.
É coisa que não se diz com boca,
isso boca não sabe dizer.
Nem valeria tanta matéria pura
repetida sem estilo.
Se eu palavreasse esse cheiro fundo
era mais um cuspe, mais um dejeto.
Falar da morte é um depois pra trás.
Pensar no medo não é sentir,
por isso coçar a canela
e assoar o nariz revelam o oculto.
São coisas que minha mão
me disse antes de fugir.
O Corpo são essas vontades.
Quando li Manoel de Barros,
quase não quis descoser escritos.
Desvirginar folhas em branco
com pequenos acertos respeitadores
ou com um verso limpo
que não fosse adúltero.
Seu nada aquático me poesiou.
E o escuro andou pela desimportância,
fiz paráfrase de cotovelo:
- descobri existência na unha cortada.
No mundo todos querem falar
e cansam o dormir das pedras.
Eu quero ser ouvido por lagartos.
Meu distanciamento de entender
quer desentranhar perplexidades de peixe.
O peixe se espanta diante de um pé,
como uma pedra sobressaltada.
Sou velador de pedras dormidas.
Quero pessoa que inventa verdades sem objeto,
pessoa com perplexidade de peixe.
Não é só fabricar uma ilusão amarela,
é advogar em saudade do caramujo.
A terra mijou muitos rios.
As pessoas estão encharcadas de nuvem.
Não vejo o Nada
no dizer de etnociências.
O silêncio se instalou em mim o seu olhar.
Minha intenção é de profundidades –
a transcendência das linguagens –
que contam sentimentos ancestrais,
entre folhas de bananeiras
habilitadas para insetos.
É coisa que não se diz com boca,
isso boca não sabe dizer.
Nem valeria tanta matéria pura
repetida sem estilo.
Se eu palavreasse esse cheiro fundo
era mais um cuspe, mais um dejeto.
Falar da morte é um depois pra trás.
Pensar no medo não é sentir,
por isso coçar a canela
e assoar o nariz revelam o oculto.
São coisas que minha mão
me disse antes de fugir.
O Corpo são essas vontades.
Quando li Manoel de Barros,
quase não quis descoser escritos.
Desvirginar folhas em branco
com pequenos acertos respeitadores
ou com um verso limpo
que não fosse adúltero.
Seu nada aquático me poesiou.
E o escuro andou pela desimportância,
fiz paráfrase de cotovelo:
- descobri existência na unha cortada.
No mundo todos querem falar
e cansam o dormir das pedras.
Eu quero ser ouvido por lagartos.
Meu distanciamento de entender
quer desentranhar perplexidades de peixe.
O peixe se espanta diante de um pé,
como uma pedra sobressaltada.
Sou velador de pedras dormidas.
Quero pessoa que inventa verdades sem objeto,
pessoa com perplexidade de peixe.
Não é só fabricar uma ilusão amarela,
é advogar em saudade do caramujo.
A terra mijou muitos rios.
As pessoas estão encharcadas de nuvem.
Não vejo o Nada
no dizer de etnociências.
O silêncio se instalou em mim o seu olhar.
Parecer Fenomenológico Existencialista
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Vital
on terça-feira, 20 de setembro de 2011
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No fundo a gente não sabe nunca
só na hora da morte, quando a intenção abandona o corpo,
deixa de habitá-lo,
o homem morre quando ele perde a capacidade
de projetar o seu olhar sobre as coisas,
por vezes o homem morre antes do corpo.
* Nota pedagógica: a repetição exaustiva de questões já apreendidas abre brechas para erros induzidos que ganham substância na linguagem.
só na hora da morte, quando a intenção abandona o corpo,
deixa de habitá-lo,
o homem morre quando ele perde a capacidade
de projetar o seu olhar sobre as coisas,
por vezes o homem morre antes do corpo.
* Nota pedagógica: a repetição exaustiva de questões já apreendidas abre brechas para erros induzidos que ganham substância na linguagem.
As Carolas de Vila Rica
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Vital
on domingo, 28 de agosto de 2011
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O absurdo de súbito rompeu com as vozes
das senhoras recatadas em suas mortalhas lutuosas
e subiu muito além dos muros e telhados
que guardaram essas pobres ovelhas por tantos invernos
à salvo! do bem e do mal, dos perigos da carne;
pastando cabisbaixas sem comer a raiva ou o sal
[apenas o obedecimento]
e essa gratidão silenciosa por não morrer antes do tempo,
por tua proteção e tua palmatória que as mantém à salvo do inimigo,
à salvo de serem salvas;
do fascínio nadificante exercido pelo abismo,
da traição que cada um carrega na testa,
da vontade alucinada de pular e não cair jamais.
Casas tão profundamente edificadas feitas de pura metafísica
conservando taciturnas expressões de pedra e penumbra
como que para adorar a privação inutilmente fracassada,
porque regozijam-se ao ver tua satisfação em estrepar-lhes o couro,
porque querem e reivindicam o limbo eterno!
Já não podem mais o paraíso das belezas intocáveis
e até preferem as dores da penitência
ao pudor de não sentir nada.
das senhoras recatadas em suas mortalhas lutuosas
e subiu muito além dos muros e telhados
que guardaram essas pobres ovelhas por tantos invernos
à salvo! do bem e do mal, dos perigos da carne;
pastando cabisbaixas sem comer a raiva ou o sal
[apenas o obedecimento]
e essa gratidão silenciosa por não morrer antes do tempo,
por tua proteção e tua palmatória que as mantém à salvo do inimigo,
à salvo de serem salvas;
do fascínio nadificante exercido pelo abismo,
da traição que cada um carrega na testa,
da vontade alucinada de pular e não cair jamais.
Casas tão profundamente edificadas feitas de pura metafísica
conservando taciturnas expressões de pedra e penumbra
como que para adorar a privação inutilmente fracassada,
porque regozijam-se ao ver tua satisfação em estrepar-lhes o couro,
porque querem e reivindicam o limbo eterno!
Já não podem mais o paraíso das belezas intocáveis
e até preferem as dores da penitência
ao pudor de não sentir nada.
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Vital
on sexta-feira, 8 de julho de 2011
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" Seria quando a gente limpa ele de algum verniz, de alguma
semostração, de brilhos falsos, de preciosismos, das dores de cor-
no e coisas que tantas. É preciso que o verso seja o indizível pessoal
de cada um. Que as nossas caras e as nossas verdades não sejam
expostas senão de costas. Que seja o verso um disfarce de nós, uma
pose ambígua. A despersonalização serve pra multiplicar o que a gente é.
"O verso tem que ser o véu e a capa de uma outra coisa",
como queria Fernando Pessoa. O verso está sol quando seja apenas
linguagem."
trecho de uma entrevista de Manoel de Barros.
semostração, de brilhos falsos, de preciosismos, das dores de cor-
no e coisas que tantas. É preciso que o verso seja o indizível pessoal
de cada um. Que as nossas caras e as nossas verdades não sejam
expostas senão de costas. Que seja o verso um disfarce de nós, uma
pose ambígua. A despersonalização serve pra multiplicar o que a gente é.
"O verso tem que ser o véu e a capa de uma outra coisa",
como queria Fernando Pessoa. O verso está sol quando seja apenas
linguagem."
trecho de uma entrevista de Manoel de Barros.
Aspiração
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Vital
on sábado, 4 de junho de 2011
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" Já não queria a maternal adoração
que afinal nos exaure, e resplandece em pânico,
tampouco o sentimento de um achado precioso
como o de Catarina Kippenberg aos pés de Rilke.
E não queria o amor, sob disfarces tontos
da mesma ninfa desolada no seu ermo
e a constante procura de sede e não de linfa,
e não queria também a simples rosa do sexo,
abscôndita, sem nexo, nas hospedarias do vento,
como ainda não quero a amizade geométrica
de almas que se elegeram numa seara orgulhosa,
imbricamento, talvez? de carências melancólicas.
Aspiro antes à fiel indiferença
mas pausada bastante para sustentar a vida
e, na sua indiscriminação de crueldade e diamante,
capaz de sugerir o fim sem a injustiça dos prêmios."
simplesmente Drummond.
que afinal nos exaure, e resplandece em pânico,
tampouco o sentimento de um achado precioso
como o de Catarina Kippenberg aos pés de Rilke.
E não queria o amor, sob disfarces tontos
da mesma ninfa desolada no seu ermo
e a constante procura de sede e não de linfa,
e não queria também a simples rosa do sexo,
abscôndita, sem nexo, nas hospedarias do vento,
como ainda não quero a amizade geométrica
de almas que se elegeram numa seara orgulhosa,
imbricamento, talvez? de carências melancólicas.
Aspiro antes à fiel indiferença
mas pausada bastante para sustentar a vida
e, na sua indiscriminação de crueldade e diamante,
capaz de sugerir o fim sem a injustiça dos prêmios."
simplesmente Drummond.
Maio
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Vital
on domingo, 15 de maio de 2011
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Descobri que gosto de Maio.
Gosto de escrever outono,
das pessoas que me ensinaram
a beleza de Maio
(principalmente as desconhecidas).
Gosto da clareza de Maio
mais essas tristezas bonitas,
nossos cabelos de vento e
Aquele acorde menor com 6ª reluz
diante da tua cama de folhas
enquanto eu componho uma harmonia imperfeita
pra você improvisar deliberadamente sua beleza,
que suspira e se desapega em Maio.
Gosto de escrever outono,
das pessoas que me ensinaram
a beleza de Maio
(principalmente as desconhecidas).
Gosto da clareza de Maio
mais essas tristezas bonitas,
nossos cabelos de vento e
Aquele acorde menor com 6ª reluz
diante da tua cama de folhas
enquanto eu componho uma harmonia imperfeita
pra você improvisar deliberadamente sua beleza,
que suspira e se desapega em Maio.
