Ode à idiotia

Que o espelho cuide sempre de esconder a verdade
Que o espelho seja o meu Outro quando eu estiver só
Que eu nunca esteja só durante a novela das nove
Que o jornalismo sangre cada vez mais e diga cada vez menos
Que a gaveta tenha sempre analgésicos guardados
Que a enxaqueca de cada dia nos dai hoje nunca falte
Que a justiça de cega esmole na sarjeta algumas misericórdias
Que a ciência sentencie a razão do pão do pó e do pâncreas
Que a razão justifique a polícia
Que a fé não se realize senão por indução
Que os heróis tenham pelo menos trezentos anos de história
Que o medo seja sofrido em paz na propriedade privada
Que o amor não se esqueça de fazer as compras do mês
Que a liberdade mova uma ação jurídica nos tribunais
Que de carro se use cinto de segurança
Que o mundo deixe de ser redondo
Que os monstros não sejam feitos de aço
Que a favela anoiteça em paz
Que Antônio Conselheiro seja de uma vez por todas esquecido
Que o brasileiro não seja mais que aquele que vende pau brasil
Que a economia jamais seja considerada política
Que essas verdades que digo desdobradas se repitam à exaustão.

6 comentários:

Anônimo disse...

'A verdade nua e crua.'
Que sua estrela continue sempre a brilhar..

Mariângela disse...

que a vida continue te inspirando palavras
e que eu continue tendo esse prazer de lê-las.
beijo

Tiago Fagner disse...

O que eu posso dizer? Além de "ficou tão bom que me deixou sem palavras"

Ode a Vital.

Lídia Borges disse...

Muito eloquente, esta "Ode à Idiotia".

L.B.

kinha disse...

Que nem todos os dias sejam de revolta...;D

coffee-break disse...

Que a sinceridade supere as barreiras da ironia.


Muito, muito bom!

Sobre seu comentário no cartaz-em-branco, realmente, quem sente quer dizer! Nomear é, de certa forma, se sentir vivo (no sentido literal da coisa)!

Abs!

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