Eu quero ser simples como a água.
Como São Francisco foi.
Simples e repleto desse mistério
que faz a faca cortar, que faz o sangue vencer a gravidade
e chegar até a cabeça,
que faz a seiva subir da raíz mais profunda
até a folha mais tenra da Samaúma.
Crônica do Não Homem nº 1
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Vital
on domingo, 20 de outubro de 2013
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Aí, de repente, a vida revelou sua total falta de sentido,
que diferença faz, se chove ou não? E se estamos na chuva ou não? Se vem um carro que passa rápido numa poça e molha a gente com água empoçada? Que diferença faz?
Se alguém te diz coisas sobre você, que supostamente deveriam te deixar triste
e até talvez te fazer chorar, mas você simplesmente não sente nada diante disso.
E não sentir nada diante disso não é indiferença - é só um monte de nada preenchendo outros montes de nada.
É a real descoberta de que ninguém perde coisa alguma,
que todas as coisas e não coisas se pertencem e o máximo que você faz durante a vida
é se entregar pra que elas (as coisas e não coisas) te usem provisória e indefinidamente como um simples meio de estar no mundo. No imenso vazio do mundo.
Cada pessoa, não é mais que uma ponte pela qual transitam sentimentos raros e vulgares,
profundos e banais; onde passam corpos e tecidos e metais e fluidos e dores e decepções e crimes e mortes e no final é como no começo - é a ausência de durante, a falta de presente; o nada absoluto. Maior que o tempo.
Aí, de repente, você envelhece e quebra ossos e se esquece onde deixou as chaves de casa, se esquece do caminho de casa, se esquece do nome próprio e vira um mendigo sem nome, sem teto, sem alegria, sem tristeza; é atropelado um dia e morre sua última morte. Numa linha de trem ou na avenida central e que diferença faz? Se ninguém enxerga sua memória esmagada por tantos automóveis insensíveis, seu corpo assassinado cotidianamente nos corpos que se desdobram para além do próprio limite. Que diferença faz?
O amor já foi banido do mundo e o seu sorriso não está.
que diferença faz, se chove ou não? E se estamos na chuva ou não? Se vem um carro que passa rápido numa poça e molha a gente com água empoçada? Que diferença faz?
Se alguém te diz coisas sobre você, que supostamente deveriam te deixar triste
e até talvez te fazer chorar, mas você simplesmente não sente nada diante disso.
E não sentir nada diante disso não é indiferença - é só um monte de nada preenchendo outros montes de nada.
É a real descoberta de que ninguém perde coisa alguma,
que todas as coisas e não coisas se pertencem e o máximo que você faz durante a vida
é se entregar pra que elas (as coisas e não coisas) te usem provisória e indefinidamente como um simples meio de estar no mundo. No imenso vazio do mundo.
Cada pessoa, não é mais que uma ponte pela qual transitam sentimentos raros e vulgares,
profundos e banais; onde passam corpos e tecidos e metais e fluidos e dores e decepções e crimes e mortes e no final é como no começo - é a ausência de durante, a falta de presente; o nada absoluto. Maior que o tempo.
Aí, de repente, você envelhece e quebra ossos e se esquece onde deixou as chaves de casa, se esquece do caminho de casa, se esquece do nome próprio e vira um mendigo sem nome, sem teto, sem alegria, sem tristeza; é atropelado um dia e morre sua última morte. Numa linha de trem ou na avenida central e que diferença faz? Se ninguém enxerga sua memória esmagada por tantos automóveis insensíveis, seu corpo assassinado cotidianamente nos corpos que se desdobram para além do próprio limite. Que diferença faz?
O amor já foi banido do mundo e o seu sorriso não está.
Beleza Morta
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Vital
on domingo, 25 de agosto de 2013
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Escrever poderia ser bom, simplesmente escolher palavras e ir colocando-as umas depois das outras como uma imensa matilha de cães e lobos que se cheiram pelo rabo e criam uma corrente que atravessa todo o espaço do nada e ruma pra lugar nenhum.
Mas é preciso coragem para encarar o papel em branco.
O escritor não pode ser um covarde. Nem pode temer a auto-revelação que vive nas suas palavras mais profundamente bem guardadas.
É preciso assumir a própria fraqueza e conhecer a morte de perto
antes de escrever um só verso verdadeiro.
É preciso ser assassinado na Síria e renascer na seca do Sertão.
A verdade é que se você está realmente vivo, em algum momento você vai ter de enfrentar essa doença incurável que te arrebata:
a incapacidade de ser indiferente ao sofrimento humano, essa triste história do mundo dos homens.
Nesse ponto o sentimento de apreciação estética já foi aniquilado, a beleza morta e esquecida.
Tudo não passa de um grande engano. As palavras estão presas na dimensão do discurso.
Tudo pode ser dito, afinal.
Rebeldia é transformar a palavra em ato e fazê-la sangrar nas mãos do leitor.
Mas é preciso coragem para encarar o papel em branco.
O escritor não pode ser um covarde. Nem pode temer a auto-revelação que vive nas suas palavras mais profundamente bem guardadas.
É preciso assumir a própria fraqueza e conhecer a morte de perto
antes de escrever um só verso verdadeiro.
É preciso ser assassinado na Síria e renascer na seca do Sertão.
A verdade é que se você está realmente vivo, em algum momento você vai ter de enfrentar essa doença incurável que te arrebata:
a incapacidade de ser indiferente ao sofrimento humano, essa triste história do mundo dos homens.
Nesse ponto o sentimento de apreciação estética já foi aniquilado, a beleza morta e esquecida.
Tudo não passa de um grande engano. As palavras estão presas na dimensão do discurso.
Tudo pode ser dito, afinal.
Rebeldia é transformar a palavra em ato e fazê-la sangrar nas mãos do leitor.
Depois
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Vital
on sábado, 20 de julho de 2013
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Eu acreditei na primeira mentira.
Depois o silêncio me inundou.
Depois,
eu nunca fui capaz da verdade.
A verdade nunca me encontrou,
passei ileso pelo risco de estar certo,
de saber algo.
A ignorância me mantém à salvo.
Eu estou na sombra,
eu me calei.
Eu acreditei na solidez da pedra.
Eu acreditei no sal da lágrima.
Eu acreditei na primeira mentira.
Depois o silêncio me inundou.
Depois,
eu nunca fui capaz da verdade.
A verdade nunca me encontrou,
passei ileso pelo risco de estar certo,
de saber algo.
A ignorância me mantém à salvo.
Eu estou na sombra,
eu me calei.
Eu acreditei na solidez da pedra.
Eu acreditei no sal da lágrima.
Eu acreditei na primeira mentira.
Pequena Memória do Mundo Modelo
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Vital
on terça-feira, 25 de junho de 2013
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A vida acontece no mercado -
Todos estão falando sobre como é se sentir feliz,
Todos estão falando sobre como é se sentir triste.
[Todos estão falando sobre si mesmos].
Não.
Não há nada no mercado
que não possa ser comprado.
Todos estão falando sobre como é se sentir feliz,
Todos estão falando sobre como é se sentir triste.
[Todos estão falando sobre si mesmos].
Não.
Não há nada no mercado
que não possa ser comprado.
Pós-Moderno
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Vital
on quinta-feira, 25 de abril de 2013
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Eu quero falar em primeira pessoa
a seguinte loucura:
-Eu sou a última pessoa, você é a última pessoa!
As pessoas não existem.
Isso não é sobre poesia.
Isso não é sobre a Escola de Frankfurt.
Isso não é sobre política ou poços de petróleo.
Isso não é sobre movimentos sociais ou zoológicos.
Isso não é sobre ataques zumbis.
Nada é mais importante que uma explosão.
O que interessa
não é
o objeto
e
ou pessoa
que
explode.
O que interessa é o barulho.
O fogo e o artifício.
Isso não é sobre Deus ou drogas sintéticas.
Isso não é sobre a guerra do Paraguai.
Isso não é sobre a reprodutibilidade técnica da arte.
Isso não é sobre o contrabando.
Isso não é sobre as estatísticas - isso não é sobre morrer.
Para estar vivo
não é preciso viver, basta escolher:
mas qual prateleira?
Isso não é sobre o amor.
Isso não é sobre a propriedade privada.
Isso não é sobre o mal estar da civilização.
Isso não é sobre sobreviver a esse mal.
Isso não é sobre os filhos e netos da depressão.
Isso não é sobre os suicidas fracassados.
Isso não é sobre nada.
Isso não é.
a seguinte loucura:
-Eu sou a última pessoa, você é a última pessoa!
As pessoas não existem.
Isso não é sobre poesia.
Isso não é sobre a Escola de Frankfurt.
Isso não é sobre política ou poços de petróleo.
Isso não é sobre movimentos sociais ou zoológicos.
Isso não é sobre ataques zumbis.
Nada é mais importante que uma explosão.
O que interessa
não é
o objeto
e
ou pessoa
que
explode.
O que interessa é o barulho.
O fogo e o artifício.
Isso não é sobre Deus ou drogas sintéticas.
Isso não é sobre a guerra do Paraguai.
Isso não é sobre a reprodutibilidade técnica da arte.
Isso não é sobre o contrabando.
Isso não é sobre as estatísticas - isso não é sobre morrer.
Para estar vivo
não é preciso viver, basta escolher:
mas qual prateleira?
Isso não é sobre o amor.
Isso não é sobre a propriedade privada.
Isso não é sobre o mal estar da civilização.
Isso não é sobre sobreviver a esse mal.
Isso não é sobre os filhos e netos da depressão.
Isso não é sobre os suicidas fracassados.
Isso não é sobre nada.
Isso não é.
Carta Engavetada nº 2
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Vital
on domingo, 7 de abril de 2013
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Amor,
eu te escrevo pra me curar de mim mesmo na tua interpretação,
na palavra que ganha a voz da tua consciência e ressoa habitante do teu corpo.
Todo sentimento é maior que qualquer significado, qualquer explicação.
Por isso eu sinto o que te escrevo tanto quanto eu nem soubesse quem eu sou.
Eu enquanto um núcleo isolado, uma solidão no fundo do mar, pouco sou, nada sou.
Mas a vida acontece até o limite de ser a própria consequência infinita de si mesma,
e eu fico tentando esculpir o tempo dentro do espaço que nos compreende,
como se houvesse uma maneira de te amar mais e sofrer menos.
Amar é a vontade de ser no outro, eu aprendi isso em você.
No silêncio do teu tato. E a mesma força que acendeu as estrelas,
habita o sentimento que aperta a boca do estômago, porque o amor que é sempre
relacionado ao coração, quando dói, dói na boca do estômago, como uma fome do avesso.
Viver e estar vivo ao mesmo tempo é muito mais duro que parece. Porque a vida
não é feita de compensações, viver não é intercalar pequenos sofrimentos e pequenas alegrias. É muito mais paradoxal que isso, como sofrer de alegria, como achar bonito
alguém chorando de verdade, na convulsão absurda de estar o tempo todo em situação, de nunca conseguir de fato ser apenas um expectador da vida - você está o tempo todo no seu corpo e o seu corpo está o tempo todo no espaço, toda escolha parte daí. Isso é liberdade.
O amor é o incerto, me parece sempre uma coisa maior, como diz naquela música 'o que é demais nunca é o bastante, a primeira vez sempre a última chance...'. O amor é a garantia de que não há garantias. Eu te amo assim.
p.s.: Amar é a melhor forma de ser livre.
eu te escrevo pra me curar de mim mesmo na tua interpretação,
na palavra que ganha a voz da tua consciência e ressoa habitante do teu corpo.
Todo sentimento é maior que qualquer significado, qualquer explicação.
Por isso eu sinto o que te escrevo tanto quanto eu nem soubesse quem eu sou.
Eu enquanto um núcleo isolado, uma solidão no fundo do mar, pouco sou, nada sou.
Mas a vida acontece até o limite de ser a própria consequência infinita de si mesma,
e eu fico tentando esculpir o tempo dentro do espaço que nos compreende,
como se houvesse uma maneira de te amar mais e sofrer menos.
Amar é a vontade de ser no outro, eu aprendi isso em você.
No silêncio do teu tato. E a mesma força que acendeu as estrelas,
habita o sentimento que aperta a boca do estômago, porque o amor que é sempre
relacionado ao coração, quando dói, dói na boca do estômago, como uma fome do avesso.
Viver e estar vivo ao mesmo tempo é muito mais duro que parece. Porque a vida
não é feita de compensações, viver não é intercalar pequenos sofrimentos e pequenas alegrias. É muito mais paradoxal que isso, como sofrer de alegria, como achar bonito
alguém chorando de verdade, na convulsão absurda de estar o tempo todo em situação, de nunca conseguir de fato ser apenas um expectador da vida - você está o tempo todo no seu corpo e o seu corpo está o tempo todo no espaço, toda escolha parte daí. Isso é liberdade.
O amor é o incerto, me parece sempre uma coisa maior, como diz naquela música 'o que é demais nunca é o bastante, a primeira vez sempre a última chance...'. O amor é a garantia de que não há garantias. Eu te amo assim.
p.s.: Amar é a melhor forma de ser livre.
Encontro Marcado
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Vital
on sexta-feira, 8 de março de 2013
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"O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima experiência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome."
(De uma carta de Hélio Pellegrino.)
(De uma carta de Hélio Pellegrino.)
Tennis And The Feral Prodigy
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on segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
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"Seja um Estudante do Jogo. Assim como muitos clichês do esporte, esse é profundo. Você pode ser lapidado, ou pode ser quebrado. Não tem muito no meio. Tente aprender. Seja treinável. Tente aprender com todo mundo, especialmente aqueles que falharam. Isso é difícil. Companheiros que fazem um fiasco ou explodem ou despencam, dão no pé, desaparecem dos rankings mensais, pulam fora do circuito. Companheiros da E.T.A. esperando deLint bater discretamente em suas portas e pedir para conversar. Oponentes. É educacional. Quão promissor você é como Estudante do Jogo é uma função sobre o que você consegue prestar atenção sem fugir. Redes e cercas podem ser espelhos. E entre as redes e cercas, os oponentes também são espelhos. Esse é o porquê da coisa toda ser assustadora. Esse é o porquê de todos os oponentes serem assustadores e oponentes mais fracos ainda mais assustadores.
'Se veja nos seus oponentes. Eles vão te levar a entender o Jogo. Aceitar o fato de que o Jogo é sobre medo administrado. Que o objetivo é largar de si próprio o que você espera que não vá retornar.
'Esse é o seu corpo. Eles querem que você saiba. Você vai tê-lo com você sempre:
'Nessa questão não há conselho; você deve adivinhar o melhor que puder. Quanto a mim, eu não espero jamais realmente saber."
trecho do Romance "Infinity Jest" do escritor e pensador norte-americano David Foster Wallace que se matou em 2008 e faria 51 anos no dia 21 de fevereiro, traduzido direto do original pelo meu genial amigo J.V.
'Se veja nos seus oponentes. Eles vão te levar a entender o Jogo. Aceitar o fato de que o Jogo é sobre medo administrado. Que o objetivo é largar de si próprio o que você espera que não vá retornar.
'Esse é o seu corpo. Eles querem que você saiba. Você vai tê-lo com você sempre:
'Nessa questão não há conselho; você deve adivinhar o melhor que puder. Quanto a mim, eu não espero jamais realmente saber."
trecho do Romance "Infinity Jest" do escritor e pensador norte-americano David Foster Wallace que se matou em 2008 e faria 51 anos no dia 21 de fevereiro, traduzido direto do original pelo meu genial amigo J.V.
para escrever um poema sincero
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Vital
on segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
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É preciso suavizar o "para sempre" que dizemos,
reconhecer o risco de um "nunca mais" dito sem pensar - e principalmente
o pensado.
Não hesitar diante da palavra ou
da boca.
Imprescindível viver todos os momentos em nome do amor
sem a mínima expectativa de ser amado;
aprender a dizer:
- eu te amo.
sem ferir ou aprisionar a pessoa amada.
Sem fazer da palavra uma moeda de troca onde há necessariamente uma resposta pra tudo.
Não temer o silêncio ao recostar-se na penumbra
aumenta olhos e ouvidos enquanto o tato
elabora suas fomes.
Contemplar a multidão
sabendo-se parte e diferença num mesmo corpo
revela que a vida nasce do impossível.
Sofrer terrivelmente,
carregar consigo todas as dores do mundo e chorar,
chorar e não limpar as lágrimas, rasgar as vaidades começando pela vergonha.
Decifrar a fragilidade por trás da violência
e ser monumentalmente forte pela própria precariedade.
Amar a provisoriedade de eternizar momentos e
continuar tentando esculpir o tempo -
acreditar que somos a nossa própria criação.
reconhecer o risco de um "nunca mais" dito sem pensar - e principalmente
o pensado.
Não hesitar diante da palavra ou
da boca.
Imprescindível viver todos os momentos em nome do amor
sem a mínima expectativa de ser amado;
aprender a dizer:
- eu te amo.
sem ferir ou aprisionar a pessoa amada.
Sem fazer da palavra uma moeda de troca onde há necessariamente uma resposta pra tudo.
Não temer o silêncio ao recostar-se na penumbra
aumenta olhos e ouvidos enquanto o tato
elabora suas fomes.
Contemplar a multidão
sabendo-se parte e diferença num mesmo corpo
revela que a vida nasce do impossível.
Sofrer terrivelmente,
carregar consigo todas as dores do mundo e chorar,
chorar e não limpar as lágrimas, rasgar as vaidades começando pela vergonha.
Decifrar a fragilidade por trás da violência
e ser monumentalmente forte pela própria precariedade.
Amar a provisoriedade de eternizar momentos e
continuar tentando esculpir o tempo -
acreditar que somos a nossa própria criação.
Sem Medo
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Vital
on quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
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Eu te desafio.
Façamos um pacto de sangue, um pacto de lágrimas;
o mundo ainda quer nos engolir,
engolir nossas escolhas,
mas eu te peço:
- negue! O destino que separa o amor.
mas eu te peço:
- ame! O destino que nós inventamos.
Hoje o amor é muito mais que uma conquista
que um ideal ou qualquer tábula rasa.
Hoje o amor ultrapassou a barreira da linguagem,
ultrapassou a barreira do som. Porque hoje
o amor é o depois de toda dor da experiência, toda decepção daquilo
que não se realizou. Hoje o amor é o silêncio
que surge depois da palavra, depois de tudo que foi visto,
depois de toda busca por entendimento ou explicação.
Hoje o amor é para além de tudo aquilo que foi em vão.
Eu te desafio.
façamos um pacto de pele, um pacto no breu;
o mundo não é suas distâncias,
mas seus caminhos
e eu te peço:
- não meça mais o tempo.
eu te peço:
- pinte apenas o quadro impossível.
O amor é e será sempre hoje
tão imaterial quanto palpável: sonho-real.
O amor é o reconhecimento tátil do eterno indizível.
O encontro que não se poupa;
que é total na sua justa incompletude,
que é verdadeiramente belo
no erro da diferença.
Eu te desafio.
Façamos um pacto: de sofrer e gozar todo amor que nos envolve e nos permeia
sem medo.
Façamos um pacto de sangue, um pacto de lágrimas;
o mundo ainda quer nos engolir,
engolir nossas escolhas,
mas eu te peço:
- negue! O destino que separa o amor.
mas eu te peço:
- ame! O destino que nós inventamos.
Hoje o amor é muito mais que uma conquista
que um ideal ou qualquer tábula rasa.
Hoje o amor ultrapassou a barreira da linguagem,
ultrapassou a barreira do som. Porque hoje
o amor é o depois de toda dor da experiência, toda decepção daquilo
que não se realizou. Hoje o amor é o silêncio
que surge depois da palavra, depois de tudo que foi visto,
depois de toda busca por entendimento ou explicação.
Hoje o amor é para além de tudo aquilo que foi em vão.
Eu te desafio.
façamos um pacto de pele, um pacto no breu;
o mundo não é suas distâncias,
mas seus caminhos
e eu te peço:
- não meça mais o tempo.
eu te peço:
- pinte apenas o quadro impossível.
O amor é e será sempre hoje
tão imaterial quanto palpável: sonho-real.
O amor é o reconhecimento tátil do eterno indizível.
O encontro que não se poupa;
que é total na sua justa incompletude,
que é verdadeiramente belo
no erro da diferença.
Eu te desafio.
Façamos um pacto: de sofrer e gozar todo amor que nos envolve e nos permeia
sem medo.
O Autômato
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Vital
on quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
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Respiro por preconceito. E contemplo o espasmo das ideias, enquanto que o Vazio sorri a si mesmo… Não há mais suor no espaço, não há mais vida; a menor vulgaridade a fará reaparecer: basta um segundo de espera.
Quando se percebe existir, experimenta-se a sensação de um demente maravilhado que surpreende sua própria loucura e busca inutilmente dar-lhe um nome. O hábito embota nosso assombro de existir: somos, e vamos além, ocupamos nosso lugar no asilo dos existentes.
Conformista, vivo, tento viver, por imitação, por respeito às regras do jogo, por horror à originalidade. Resignação de autômato: simula fervor e ri disso secretamente; só submeter-se às convenções para repudiá-las às escondidas; figurar em todos os registros, mas sem residência no tempo; salvar a cara, quando seria imperioso perdê-la… Aquele que despreza tudo deve assumir um ar de dignidade perfeita, induzir ao erro os outros e até ele mesmo: cumprirá assim mais facilmente sua tarefa de falso vivente. Para que mostrar nossa ruína se podemos fingir a prosperidade? O inferno não tem boas maneiras: é a imagem exasperada de um homem franco e grosseiro, é a terra concebida sem nenhuma superstição de elegância e de civilidade.
Aceito a vida por cortesia: a revolta perpétua é de tão mau gosto como o sublime do suicídio. Aos vinte anos se rompe em impropérios contra os céus e a imundície que cobrem; depois se cansa. A pose trágica só corresponde à puberdade prolongada e ridícula; mas são necessárias mil provas para alcançar o histrionismo do desapego. Quem, emancipado de todos os princípios de costume, não dispusesse de nenhum dom de comediante, seria o arquétipo do infortúnio, o ser idealmente desgraçado. É inútil construir tal modelo de franqueza: a vida só é tolerável pelo grau de mistificação que se põe nela. Tal modelo seria a ruína da sociedade, pois a “doçura” de viver em comum reside na impossibilidade de dar livre curso ao infinito de nossos pensamentos ocultos. É porque somos todos impostores que nos suportamos uns aos outros. Quem não aceitasse mentir veria a terra fugir sob seus pés: estamos biologicamente obrigados ao falso. Não há herói moral que não seja ou pueril, ou ineficaz, ou inautêntico; pois a verdadeira autenticidade é o aviltamento na fraude, no decoro da adulação pública e da difamação secreta. Se nossos semelhantes pudessem constatar nossas opiniões sobre eles, o amor, a amizade, o devotamento seriam riscados para sempre dos dicionários; e se tivéssemos a coragem de olhar cara a cara as dúvidas que concebemos timidamente sobre nós mesmos, nenhum de nós proferiria um “eu” sem envergonhar-se. A dissimulação arrasta tudo o que vive, desde o troglodita até o cético. Como só o respeito das aparências nos separa dos cadáveres, precisar o fundo das coisas e dos seres é perecer; conformemo-nos a um nada mais agradável: nossa constituição só tolera uma certa dose de verdade…
Guardemos no fundo mais profundo de nós mesmos uma certeza superior a todas as outras: a vida não tem sentido, não pode tê-lo. Deveríamos nos matar imediatamente se uma revelação imprevista nos persuadisse do contrário. Se o ar desaparecesse, respiraríamos ainda; mas sufocaríamos no mesmo instante se nos fosse roubada a alegria da inanidade…
por: Emil Cioran
em: Breviário de Decomposição
Quando se percebe existir, experimenta-se a sensação de um demente maravilhado que surpreende sua própria loucura e busca inutilmente dar-lhe um nome. O hábito embota nosso assombro de existir: somos, e vamos além, ocupamos nosso lugar no asilo dos existentes.
Conformista, vivo, tento viver, por imitação, por respeito às regras do jogo, por horror à originalidade. Resignação de autômato: simula fervor e ri disso secretamente; só submeter-se às convenções para repudiá-las às escondidas; figurar em todos os registros, mas sem residência no tempo; salvar a cara, quando seria imperioso perdê-la… Aquele que despreza tudo deve assumir um ar de dignidade perfeita, induzir ao erro os outros e até ele mesmo: cumprirá assim mais facilmente sua tarefa de falso vivente. Para que mostrar nossa ruína se podemos fingir a prosperidade? O inferno não tem boas maneiras: é a imagem exasperada de um homem franco e grosseiro, é a terra concebida sem nenhuma superstição de elegância e de civilidade.
Aceito a vida por cortesia: a revolta perpétua é de tão mau gosto como o sublime do suicídio. Aos vinte anos se rompe em impropérios contra os céus e a imundície que cobrem; depois se cansa. A pose trágica só corresponde à puberdade prolongada e ridícula; mas são necessárias mil provas para alcançar o histrionismo do desapego. Quem, emancipado de todos os princípios de costume, não dispusesse de nenhum dom de comediante, seria o arquétipo do infortúnio, o ser idealmente desgraçado. É inútil construir tal modelo de franqueza: a vida só é tolerável pelo grau de mistificação que se põe nela. Tal modelo seria a ruína da sociedade, pois a “doçura” de viver em comum reside na impossibilidade de dar livre curso ao infinito de nossos pensamentos ocultos. É porque somos todos impostores que nos suportamos uns aos outros. Quem não aceitasse mentir veria a terra fugir sob seus pés: estamos biologicamente obrigados ao falso. Não há herói moral que não seja ou pueril, ou ineficaz, ou inautêntico; pois a verdadeira autenticidade é o aviltamento na fraude, no decoro da adulação pública e da difamação secreta. Se nossos semelhantes pudessem constatar nossas opiniões sobre eles, o amor, a amizade, o devotamento seriam riscados para sempre dos dicionários; e se tivéssemos a coragem de olhar cara a cara as dúvidas que concebemos timidamente sobre nós mesmos, nenhum de nós proferiria um “eu” sem envergonhar-se. A dissimulação arrasta tudo o que vive, desde o troglodita até o cético. Como só o respeito das aparências nos separa dos cadáveres, precisar o fundo das coisas e dos seres é perecer; conformemo-nos a um nada mais agradável: nossa constituição só tolera uma certa dose de verdade…
Guardemos no fundo mais profundo de nós mesmos uma certeza superior a todas as outras: a vida não tem sentido, não pode tê-lo. Deveríamos nos matar imediatamente se uma revelação imprevista nos persuadisse do contrário. Se o ar desaparecesse, respiraríamos ainda; mas sufocaríamos no mesmo instante se nos fosse roubada a alegria da inanidade…
por: Emil Cioran
em: Breviário de Decomposição
o Poema no Escuro
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Vital
on terça-feira, 16 de outubro de 2012
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A nossa história não está clara,
mas guarda em si qualquer beleza
ou indício de bravura;
é o poema no escuro.
O destino do nosso passado
Repleto de tiranos, selvagens, bandeiras, ditadores
e nenhum herói
[afora os farsantes].
É o chão dos esquecidos, dos marginais,
todos prontos e capazes das maiores atrocidades,
todos filhos de Caim carregando na testa sua sina.
Existem também os santos, muitos deles, redentores anônimos da humanidade,
principalmente nos viadutos e lixões,
principalmente onde não passam carros,
onde
só passam carros sem uma alma sequer. Mas sua carne é invisível,
seu nome impronunciável - eles estão expostos ao sol do meio-dia,
mas sua pele não queima nem cheira, porque eles sequer existem, porque eles não são mais que
uma massa indistinta e estarão sempre no escuro.
Não importa o quanto gritem.
No fundo do rio Amazonas, do São Francisco,
repousa esquecida à salvo nossa segunda face - não a do perdão humilhado,
receoso de reivindicar qualquer coisa que seja;
mas a do direito ao ódio não sublimado, a face da desforra secular, da antropofagia canibal faminta de tudo que quebra regras, burla leis e nos garante o inferno. Enquanto na superfície, trafegam
os motores, a falácia, pelo quintal da América Modelo
com seus mapas geopolíticos grotescamente alterados,
seu entretenimento homicida, seu melhor sorriso de saqueador
[estamos nos Trópicos],
sua mão grande de burguês sempre disposta a barganhar o que quem que seja,
com traidores, com arcebispos e até mesmo com Deus,
porque comprar almas mais baixas para que cometam e carreguem os pecados
dos quais são incapazes é tão justo
quanto a usura.
Antes, muito antes.
Seremos então a sesmaria portuguesa; a vizinha
forçadamente inimiga de los hermanos: - tão diferentes de nós!
Mas não! Não há nada que nos estreite, que seja capaz
de tornar-mo-nos ao menos suportáveis uns aos outros. Nem mesmo Além-Mar
somos compatíveis nas raízes de nossas árvores genealógicas putrefatas,
corroídas desde a casca até a moral,
nossa frágil moral de bons costumes, tolerância e respeito pela propriedade privada.
Deveríamos de fato refazer a guerra do Paraguai,
dizimar toda a América Hispânica num ciclo ad eternum ininterruptamente recomeçado,
para podermos enfim
adorar nossas catedrais, nossos costumes tão duramente reproduzidos
a sós com nossa mediocridade
e ainda assim indispensáveis aos pés do oratório.
Não está clara nossa história,
mas na sua escuridão guarda ainda qualquer beleza oculta.
Qualquer fagulha de insurreição. E para tanto,
não é preciso acender a luz, abrir a janela, olhar o sol.
Basta tatear as trevas com mãos noturnas - a noite é tão insondável quanto o fundo do rio, quanto a aurora do galo.
mas guarda em si qualquer beleza
ou indício de bravura;
é o poema no escuro.
O destino do nosso passado
Repleto de tiranos, selvagens, bandeiras, ditadores
e nenhum herói
[afora os farsantes].
É o chão dos esquecidos, dos marginais,
todos prontos e capazes das maiores atrocidades,
todos filhos de Caim carregando na testa sua sina.
Existem também os santos, muitos deles, redentores anônimos da humanidade,
principalmente nos viadutos e lixões,
principalmente onde não passam carros,
onde
só passam carros sem uma alma sequer. Mas sua carne é invisível,
seu nome impronunciável - eles estão expostos ao sol do meio-dia,
mas sua pele não queima nem cheira, porque eles sequer existem, porque eles não são mais que
uma massa indistinta e estarão sempre no escuro.
Não importa o quanto gritem.
No fundo do rio Amazonas, do São Francisco,
repousa esquecida à salvo nossa segunda face - não a do perdão humilhado,
receoso de reivindicar qualquer coisa que seja;
mas a do direito ao ódio não sublimado, a face da desforra secular, da antropofagia canibal faminta de tudo que quebra regras, burla leis e nos garante o inferno. Enquanto na superfície, trafegam
os motores, a falácia, pelo quintal da América Modelo
com seus mapas geopolíticos grotescamente alterados,
seu entretenimento homicida, seu melhor sorriso de saqueador
[estamos nos Trópicos],
sua mão grande de burguês sempre disposta a barganhar o que quem que seja,
com traidores, com arcebispos e até mesmo com Deus,
porque comprar almas mais baixas para que cometam e carreguem os pecados
dos quais são incapazes é tão justo
quanto a usura.
Antes, muito antes.
Seremos então a sesmaria portuguesa; a vizinha
forçadamente inimiga de los hermanos: - tão diferentes de nós!
Mas não! Não há nada que nos estreite, que seja capaz
de tornar-mo-nos ao menos suportáveis uns aos outros. Nem mesmo Além-Mar
somos compatíveis nas raízes de nossas árvores genealógicas putrefatas,
corroídas desde a casca até a moral,
nossa frágil moral de bons costumes, tolerância e respeito pela propriedade privada.
Deveríamos de fato refazer a guerra do Paraguai,
dizimar toda a América Hispânica num ciclo ad eternum ininterruptamente recomeçado,
para podermos enfim
adorar nossas catedrais, nossos costumes tão duramente reproduzidos
a sós com nossa mediocridade
e ainda assim indispensáveis aos pés do oratório.
Não está clara nossa história,
mas na sua escuridão guarda ainda qualquer beleza oculta.
Qualquer fagulha de insurreição. E para tanto,
não é preciso acender a luz, abrir a janela, olhar o sol.
Basta tatear as trevas com mãos noturnas - a noite é tão insondável quanto o fundo do rio, quanto a aurora do galo.
segredo
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Vital
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Poesia é uma coisa muito rara.
A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem, perdão.
Não peça.
Drummond.
A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem, perdão.
Não peça.
Drummond.
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Vital
on terça-feira, 9 de outubro de 2012
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"O destino do homem como se assemelha ao vento. A alma do homem como se assemelha à água. Por que tanto tormento, tanta aflição? Morrer é só não ser visto. É preciso abraçar a volúpia. Fartar-se de prazeres. Não ter medo da morte."
Goethe
Goethe
O Verbo
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on terça-feira, 11 de setembro de 2012
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O amor é.
Todas as coisas são.
[Não ser]
existe em algum não lugar-
comum;
como tudo que a alma inventa
e o tempo não alcança.
A dúvida é um pertencimento,
a chance eterna,
o feixe de luz.
O outro - sou - é.
Entre nós o poder
da
palavra
Lancinante em seu círculo
de fogo
com
a força de lágrimas
sem olhos
O amor é.
Todas as coisas são.
[Não ser]
existe em algum não lugar-
comum;
como tudo que a alma inventa
e o tempo não alcança.
A dúvida é um pertencimento,
a chance eterna,
o feixe de luz.
O outro - sou - é.
Entre nós o poder
da
palavra
Lancinante em seu círculo
de fogo
com
a força de lágrimas
sem olhos
O amor é.
Alhures
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Vital
on segunda-feira, 6 de agosto de 2012
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E de tudo aquilo que não morreu
fez-se o nosso silêncio.
Olhamos alhures, folhas de um outono
que demora a distância de uma estrela já morta.
Mas amamos as explosões,
o instante que abandona sua condição
impermanente de ida
sem volta.
Porque um depois
guarda sempre o atônito inerte,
quando do além-ímpeto espelha no ser
uma reflexão vazia
e
a postura
curva
de um cansaço sem
repouso.
fez-se o nosso silêncio.
Olhamos alhures, folhas de um outono
que demora a distância de uma estrela já morta.
Mas amamos as explosões,
o instante que abandona sua condição
impermanente de ida
sem volta.
Porque um depois
guarda sempre o atônito inerte,
quando do além-ímpeto espelha no ser
uma reflexão vazia
e
a postura
curva
de um cansaço sem
repouso.
l. Mandamento
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Vital
on sexta-feira, 29 de junho de 2012
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Eu só queria atravessar algumas ruas,
escolher os pães mais macios,
olhar distraidamente as meninas a caminho da perfeição
e ser minha inércia no vácuo tranquilamente
sem ter que sentir a culpa de viver
nos olhos dos vira-latas que aguardam a hora do lixo.
Não pude,
não fui capaz do egoísmo ameno,
tive que matar minha individualidade.
Todo humanista é um suicida.
escolher os pães mais macios,
olhar distraidamente as meninas a caminho da perfeição
e ser minha inércia no vácuo tranquilamente
sem ter que sentir a culpa de viver
nos olhos dos vira-latas que aguardam a hora do lixo.
Não pude,
não fui capaz do egoísmo ameno,
tive que matar minha individualidade.
Todo humanista é um suicida.
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Vital
on sexta-feira, 8 de junho de 2012
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"Tudo creio já foi pensado e dito por tantos e tontos. Ou quase tudo. Ou quase tontos. De modo que não há novidade debaixo do sol - e isso também já foi dito. "Os temas do mundo são pouco numerosos e os arranjos são infinitos" - falou Barthes. Então, o que se pode fazer de melhor é dizer de outra forma. Se for para tirar gosto poético, vai bem perverter a linguagem. Não bastam licenças poéticas. Há que se ir às licenciosidades. Temos de molecar o idioma para que ele não morra de clichês. Subverter a sintaxe até a castidade: isto quer dizer: até obter um texto casto. Um texto virgem que o tempo e o homem ainda não tenham espolegado. O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso propor novos enlaces para as palavras. Injetar insanidade nos verbos para que transmitam aos nomes seus delírios. Em Nunes Peres Sandeu, nas Cantigas dos Trovadores Medievais selecionados por Clarice Berardinelli, encontro estes versos:
e, poys aqueles olhos meus
Por el perderem o dormir
A beleza se abre no verso "Por el perderem o dormir". Porque perder o dormir está no lugar de perder o sono, que é um lugar comum e portanto se esgotou de expressar. Há que se encontrar a primeira vez de uma frase para ser-se poeta nela. Mas tudo isso é tão antigo como mijar na parede. Só que foi dito de outra maneira."
trecho de entrevista do velho bandarra Manoel de Barros
e, poys aqueles olhos meus
Por el perderem o dormir
A beleza se abre no verso "Por el perderem o dormir". Porque perder o dormir está no lugar de perder o sono, que é um lugar comum e portanto se esgotou de expressar. Há que se encontrar a primeira vez de uma frase para ser-se poeta nela. Mas tudo isso é tão antigo como mijar na parede. Só que foi dito de outra maneira."
trecho de entrevista do velho bandarra Manoel de Barros
Poema Ateu nº 2
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Vital
on domingo, 6 de maio de 2012
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Acredito a liberdade que aceitamos,
muito mais que a que perseguimos, seja esse claro enigma,
esse silêncio corporal ao qual nos devotamos
Como que inevitavelmente face a face
na véspera do momento em que me desfaço da ilusão e dos pressupostos
e mergulho no teu mistério de beleza e silêncio.
A perplexidade de amar descomedidamente todas as coisas,
próprias e inapreensíveis como elas são, apesar da nossa contingência
de estarmos sempre diante do nada.
muito mais que a que perseguimos, seja esse claro enigma,
esse silêncio corporal ao qual nos devotamos
Como que inevitavelmente face a face
na véspera do momento em que me desfaço da ilusão e dos pressupostos
e mergulho no teu mistério de beleza e silêncio.
A perplexidade de amar descomedidamente todas as coisas,
próprias e inapreensíveis como elas são, apesar da nossa contingência
de estarmos sempre diante do nada.
